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não quero fugir da realidade
definitivamente
só preciso de umas poucas horas
longe de tudo
perto de mim
(tumblr_indissoluvel).
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uma poltrona antiga
e um gato cinza
a brincar com os últimos
fiapos de luz
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lãs agulhas lembranças
costuro uma estória
para me guiar
pelos assombros da noite
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lá fora o tempo se fia
aqui eu e meu gato
bichos domésticos
em sonolenta vigília
…
Postado em livro SEM ALARDE, POEMAS

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em 15 de março inicia-se uma nova vida
o que passou será mencionado como se fora um sonho
ou uma lembrança de vidas passadas
excetuando-se algumas coisas
absolutamente cotidianas e banais
como trabalhar comer morar e respirar
tudo o mais será diferente
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o uso do mesmo nome é mera opção pelo mais fácil
poderia ser qualquer outro
mas em benefício da comodidade
sigo atendendo por ele
e respondendo aos interlocutores
como se de fato eu fosse ainda a outra
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em 15 de março jaz em algum lugar um rosto
uma história decomposta em outras
persistirá em algum nível
interditando/intermediando a de agora
porém não há garantias
nem mesmo esta data é precisa
já que tudo é ilusão
(Imagem: kam-tang-biogimage)
jogo palavras cruzadas
acendo o fogo lembro de ti
sem levantar dor ou dúvida
me entretenho com a chuva
a escorrer na grande janela
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vagueio por livros não lidos
revistas antigas
poemas por vir
me acomodo entre cobertas
enredada em distâncias
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noite mansa
sem visitas ou surpresas
consulto oráculos
imaginários
e atiro palavras ao leu
De um jeito ou outro iriamos nos revelar quando a cortina se abrisse desvendando a verdade e o engano. Poderia levar alguns anos mais, é verdade, sempre há formas de adiar. Fins são sempre doídos.
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Mas foi num dia qualquer, você agindo como sempre, não poderia supor, nem eu, já que fui a feira e comprei pimentões amarelos e vermelhos, tão mais caros que os verdes, só pra dar cor à nossa intimidade já um pouco pálida. É claro que me apercebi disso no depois de tudo.
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Ainda hoje não sei dizer se foram as cores vivas dos pimentões, o amarelo forte do açafrão no arroz, as cortinas da sala fechadas como numa peça que já terminou, o fato é que naquele jantar, apesar do vinho de guarda e das velas, tudo me pareceu prato feito que se come por pura obrigação.
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Em algum momento a chama da vela denunciou aquele lado ou sombra que você sempre esconde, o sorriso um tanto torto, o olhar que me deu medo. Quem seria você? E por que insistíamos nisso? Quem seria eu sem você?
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Caí em mim e soube também do seu tédio. Encenávamos há tanto aquela peça, as falas de sempre e de cor. Nem foi preciso muito esforço para desmontar o cenário e nos tirar de cartaz.