adestrados

by axellie-querosericasso

( by axellie-queroserpicasso )

.

invento

um novo

jogo

incenso

a casa

abro a porta

da jaula

.

 

mas o bicho

se domesticou

não foge

não fere

não ruge

passa os dias

vendo tv

de plasma

a casa ao lado

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as xícaras tem variadas formas

e combinam ou não

com pires e pratos

a toalha bordada

gastou de tanto uso

substituída por uma de plástico

não existem canetas de ouro

carrilhões ou porta-retratos

com sisudos e velhos barões

que aliás nunca existiram

 

de um jeito ou de outro

a vida descasca

do longe

traços

quando o silêncio transborda

ouço seus passos

sua voz chega

do longe do nunca mais

.

 

sua sombra

ainda se esconde

entre as plantas da varanda

às vezes me assusta

outras me entristece

nesta data

kam_tang_biogimage

.

em 15 de março inicia-se uma nova vida
o que passou será mencionado como se fora um sonho
ou uma lembrança de vidas passadas
excetuando-se algumas coisas
absolutamente cotidianas e banais
como trabalhar comer  morar e respirar
tudo o mais será diferente
.
o uso do mesmo nome é mera opção pelo mais fácil
poderia ser qualquer outro
mas em benefício da comodidade
sigo atendendo por ele
e respondendo aos interlocutores
como se de fato eu fosse ainda a outra
.
em 15 de março jaz em algum lugar um rosto
uma história decomposta em outras
persistirá em algum nível
interditando/intermediando a de agora
porém não há garantias
nem mesmo esta data é precisa
já que tudo é ilusão

 

(Imagem: kam-tang-biogimage)

chuva mansa

jogo palavras cruzadas
acendo o fogo lembro de ti
sem levantar dor ou dúvida
me entretenho com a chuva
a escorrer na grande janela
.
vagueio por livros não lidos
revistas antigas
poemas por vir
me acomodo entre cobertas
enredada em distâncias
.
noite mansa
sem visitas ou surpresas
consulto oráculos
imaginários
e atiro palavras ao leu

último espetáculo

De um jeito ou outro iriamos nos revelar quando a cortina se abrisse desvendando a verdade e o engano. Poderia levar alguns anos mais, é verdade, sempre há formas de adiar. Fins são sempre doídos.
.
Mas foi num dia qualquer, você agindo como sempre, não poderia supor, nem eu, já que fui a feira e comprei pimentões amarelos e vermelhos, tão mais caros que os verdes, só pra dar cor à nossa intimidade já um pouco pálida. É claro que me apercebi disso no depois de tudo.
.
Ainda hoje não sei dizer se foram as cores vivas dos pimentões, o amarelo forte do açafrão no arroz, as cortinas da sala fechadas como numa peça que já terminou, o fato é que naquele jantar, apesar do vinho de guarda e das velas, tudo me pareceu prato feito que se come por pura obrigação.
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Em algum momento a chama da vela denunciou aquele lado ou sombra que você sempre esconde, o sorriso um tanto torto, o olhar que me deu medo. Quem seria você? E por que insistíamos nisso? Quem seria eu sem você?
.
Caí em mim e soube também do seu tédio. Encenávamos há tanto aquela peça, as falas de sempre e de cor. Nem foi preciso muito esforço para desmontar o cenário e nos tirar de cartaz.