um livro se tecendo

de entranhas e vertigens

abarrotado de enigmas

ainda indecifráveis

tempo comendo tempo

fio puxando fio

abrindo feridas

cicatrizando outras

uma história e seu enredo

uma vida e seu epílogo

um trago uma arma

um pouco de sopa

outro tanto de sorte

o dorso nu do personagem

a embriaguez das primeiras falas

um livro se tramando

brotando de dias sem sol

de janelas entreabertas

a dura saga do protagonista

a odisseia do escritor

quase

Foto com detalhe do trabalho tteia de Lygia Pape

já tinha até título

na cabeça os personagens pela metade

esperavam

cada um do seu jeito

para entrar em cena e se completar

diria que eram mais que esboço

só faltava aquele mágico toque

mas tive medo

de arvorar-me deus

UM CORAÇÃO NA MÃO

Pra fazer arte tem que ter um coração carregado de paixão!

OSSOS DO OFÍDIO

*

Um coração na mão.

E uma ideia na cabeça, digamos.

Nesta quarta, no meu Instagram, foi dia de reencontro com a querida amiga e cineasta Anna Muylaert.

Na foto acima, estamos em 2018 no lançamento da plataforma Navega. Estreamos juntos o projeto de cursos on-line. Eu com literatura e ela com cinema.

Pois bem: na nossa conversa de hoje, na live Na Hora do Almoço, perguntei a certa hora qual conselho a diretora, entre outras obras, do Que Horas Ela Volta, daria para quem quer seguir a carreira no cinema.

Veja se a resposta não é uma aula para quem quiser fazer qualquer coisa com arte: escrever, compor, desenhar, etc.

“Filme é coração. Tem de se buscar essa chama. Buscar a chama da humanidade em si. Se não for assim, por que razão fazer um filme? Por que razão contar uma história? Uma história tem de…

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em algum lugar um cão

em algum lugar

 

Um cachorro late. Pode estar preso ou ter medo do escuro. A casa sem luz e sem sustos. Presto atenção ao arranhar no telhado, pode ser de um morcego, pássaro ou o vento abrindo passagem entre as frestas que o tempo vinca nas paredes. Pode ser também uma lembrança, mas prefiro esquecer. Tudo é quase jeito de fingir não ser. E como não dou atenção aos ruídos eles cessam. Então resta só cachorro arrastando seu latido pela noite.

O cão para de latir e não sobra nada. Vazio e silêncio se beijam e não há como intervir ou modificar este estado de coisas. Só observar o nada, tocar e ser tocado por nada. Prender a respiração. Quase implorar ao cão preso em alguma brecha entre a porteira e a escuridão que volte a latir.

Mas se a boca da noite fez dele um vigia desejante de outros abismos só me resta gritar. E voltar a respirar.

aguando

Agua

 

acordo com a força de uma ideia

rabisco o dia com carvão e lápis de cera

imito pássaros a passarar no céu anil

pratico ser algo coisa ou peixe

entardeço na preguiça do antes e do depois

perco os sapatos

no chão descalço desses dias

esqueço nomes mapas revelações

não há mistério que resista

a dias sem névoa

noites sem ressaca

e um mar imenso ao redor

Chamado

Todas as noites o velho e quase inútil orelhão toca, quem hoje ainda se utiliza de um? Há celulares por todos os lados, roubados e revendidos quase ao mesmo tempo, outros ainda parcelados em cartões de crédito a perder de vista. Quem ainda sai de casa para usar um deles? Para que servem agora? Um lugar para se abrigar momentaneamente da chuva, ler propagandas indecentes, servir de poste para bêbados ou cães.

Fora do tempo, no vazio da noite, ele toca, uma, duas, dez vezes. Unilateralmente, sem objeto, ele chama. Quem liga a esta hora e por que? Quer falar com quem se é um telefone público, próprio para efetuar ligações, não para receber. Número sem endereço na lista, também ela em desuso.

Ainda assim, ou por isso, ele toca. No silêncio da madrugada se transforma em um grito, uma ferida. Ninguém vai lá para saber quem liga, o que deseja. Será que, de tão desesperado, liga por costume, por nada? Será que teme que a solidão devore os que o ouvem, mas não sabem mais como sair de si mesmos?

Ensaio ir até lá. Talvez ainda uma chance. Derrubar estas paredes, arrombar a porta, descer pelas escadas e dizer: Sim?

Quando 30 = 7

Quando 30 anos produzem 7 livros

Convite Lançamento Ipanema

 

Na década de 80 éramos ávidos buscadores. Queríamos escrever, traduzir em palavras ideias e sentimentos. Enveredar pela prosa e pela poesia, através delas viajar, gritar, resistir, viver para além de sobreviver.

Oficinas literárias, mesmo no Rio de Janeiro, eram raras. Havia uma ótima em Ipanema. Vínhamos de perto e de longe, a distância era apenas uma das dificuldades que encontraríamos no mundo da escrita. Cada um tinha seu trabalho, uns já construindo família, outros ainda em alegres flertes com a vida, todos tão distintos que nem poderíamos imaginar que um dia faríamos 30 anos.

A oficina acabou, órfãos de um espaço que nos acolhesse criamos o nosso. Na casa de Marilena começamos a desenhar o que seria o grupo, quem poderíamos convidar para somar. E foi assim que nos tornamos sete. Com os anos uns deram passos literários maiores, produziram vários livros, outros menos. Juntos publicamos 3 coletâneas, fomos a eventos literários, ministramos e participamos de oficinas. E para muito além do exercício da escrita que nos unia e nos motivava, laços foram se estreitando, num aprendizado de aceitação e construção de amizade.

Agora, 30 anos após nossas primeiras reuniões, como forma de comemorar nossos elos e perseverança no escrever, lançamos 7 livros. Cada autor com sua temática e características. Todos com o desejo de estar juntos nesse momento especial.

O processo durou quase todo o ano, afinal todos temos compromissos e embaraços típicos da cidade grande e da modernidade. Excesso de informação pode confundir, paralisar, e, se não seguramos firmemente o leme dos dias, acabamos por mudar de rumo e adiar a realização dos sonhos. Mas não dessa vez, estávamos firmes no propósito de não nos perdermos.

Nosso barco está prestes a atracar. Nossos poemas, crônicas, contos, novelas, passando por esse mágico processo de transformação em livro – esse objeto palpável, com cheiro de tinta, que brota de nós e segue, independente, por caminhos imprevisíveis.