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mar.

sei de você detalhes

assimilados de súbito

sem muitos preâmbulos

ou divagações

.

do longe que se impôs

observo dias mais longos

porque noites vazias

e ainda assim pouco sei

.

sentir é mais que saber

embora quase sempre

seja necessário nomear

.

mas andava sem palavras

e o abraço funcionou como senha

para que nosso barco ainda em esboço

se atirasse ao mar

ontem

DSC09971.JPG

.

ontem te vi passar
nevava muito em Nova York
às seis da tarde já escuro
eu nem estava lá
você tampouco

.

seu sobretudo azul
cheio de gomos brancos
pensei te convidar
pra fazermos um boneco de neve

.

então sorrimos e nos abraçamos
mas isso foi ontem em Nova York
onde nunca houve
eu e você

cultivar

Tenho questões pendentes

que me esforço por resolver

embora duvide do valor do que se faz

da dor que nada traduz

da espera nos pontos de ônibus

 

Tenho reunido impressões

em fotos em abraços em branco

guardado amores em rascunhos

apostado em noites sem lua

em corpos sem rosto

em rostos sem amargura

 

Tenho feito de tudo um pouco

e pouco me ajudam os mapas

as viagens de qualquer espécie

e os dicionários de antônimos

 

Mas me esforço para sorrir

bilhar junto aos primeiros raios de sol

e embarcar em sonhos e planos

às vezes em alto mar

outras em voos rasantes 

 

Viajo em rios caudalosos

em braços feitos cipó

um dia maremoto outro túnel do tempo

outro ainda lições de silêncio

ou um amor que dura infinito momento

sem tempo sem muros

semente

concerto solo

by desenharts (tumblr)

por hoje basta

o morto na rua

o beato na praça

amor e mordaças

a massa de tomate

no bigode e as moscas

caindo num prato

de fundo tédio

por hoje ficamos assim

ficando

eu me acompanho em concerto

pra solidão sem orquestra

amanhã

é uma outra fresta

querer

Abrir a janela pro sol

e vislumbrar uma gorda manhã

atravessar o pomar das questões difíceis

a horta das mínimas coisas

sorrir pras crianças na porta da escola

e seguir sem pressa

.

Queria muito

você na varanda esperando por mim

dizendo que voltou

e que veio pra durar

um tempo de poemas e colheitas

possível

Eu penso em você

Pulando poças d’água

Escorregando na lama

Há cerca de mil anos

Acho que nos amamos

E era só um olhar pro outro

Pra tudo saber

 

Desenhar azuis era um hobbie

Fazer amor –  uma forma a mais

De abrir portas e viajar no espaço

 

Lembro das palavras absurdas

Do abraço encantado

Dos seus passos no escuro

Do sono tranquilo

Se permanecias comigo

A noite inteira

 

Do que falávamos ?

Nem sei, nossa relação tinha cheiro

Tinha melodia e letra

Quantas vezes fomos ao céu

Um do outro e mais além ?

 

Agora acordo nessa cama

Larga e vazia

Não é bom, nem fácil

Mas sei que amar é um mistério

possível

liquidificador

by Sven Fennema (Asylum Art)

esse caracol se enreda

brincando de trocadilhos

troca trilhos pinta o teto de anil

às vezes se enrosca em meu pescoço

se esconde entre versos

invade minha noite e pensamentos

destampa sorrisos

segreda promessas

.

Vive em aparente calma

mas em situações de perigo se encasula

ou se camufla

algumas vezes de gente

com olhos boca e dentes

já me convenceu certa época

de sua natureza humana

.

Mas caracol, por princípio e filosofia (eu acho)

sai pouco de casa

e muito desconfia

ao primeiro sinal de perigo

que pode ser um pingo de chuva

ou uma palavra com conotações mercantilistas

ou ainda uma centopeia (a palavra ou ela mesma)

se encaracola

encaramuja

come doces e cospe celulares

.

Misturando tudo

o que houve

o que ouviu ou não

uma planta comestível

um olhar

alguma verdade

uma frase pêndulo

um olhar fundo

uma casa

uma ou outra tolice

um sonho destecido

.

Tudo isso e tudo o mais

num hiper mega

liquidifica   dor

liquidifica  mor

óbvios

by Andrea Galluzzo (Asylum Art)

somos perigosos e dóceis

matamos por amor

e deixamos morrer por descuido

todos espertos experts idiotas

feridos por uma orfandade

que usamos como escudo

às vezes como espada

.

somos absolutamente óbvios

embora nos enganemos a toda hora

talvez um dia a gente encare

a outra face antes da morte

e diante dela qualquer explicação

será supérflua

Prelúdio

Chegou devagar e ficou me olhando até eu me voltar. Então perguntou se poderia ficar. Se não fizer barulho nem me incomodar. Ele ficou, no canto da sala, misturado aos móveis e algumas folhagens. Horas depois, preparando o jantar, lembrei-me dele. Aceita uma sopa ? Estava faminto, dei-lhe leite e pão. Sorriu. Ajudou-me a tirar a mesa e arrumou a cozinha enquanto tomei banho. Voltou para o sofá e esperou. Dei-lhe uma toalha e mostrei o banheiro. No sofá deixei uma blusa e roupa de cama. Pela manhã encontrei o café servido. Tomamos em silêncio, e alguns momentos pousava seus olhos mansos em mim.

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Uma noite acordei e ele estava sentado na beira da cama. Posso ficar aqui? perguntou apontando o lado vazio. Se não se mexer muito. Seu sono veio logo, tranquilo. Acordava sempre antes e deitava-se depois, mal percebia seus movimentos.

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Acostumei-me a ele como às plantas que enchiam a casa de perfume e cor. De seu, acabou trazendo poucas roupas e muitos discos. Posso colocar um? Desde que eu goste e não muito alto. Um som agradável envolveu a casa. Tem outra coisa: em dias nublados e de chuva fina gosto de ouvir Chopin. Não precisei mais abrir os olhos pra saber que chovia, a música inundando o quarto.

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Sempre gostei de ler, pediu-me que o fizesse em voz alta. Só poemas e quando cansar você continua, ele concordou. Romance. Líamos sentados no sofá, às vezes acompanhados por Schumann, outras por Bach, Haydn. Músicas cantadas só a noite, quando cansados dos livros ficávamos a sonhar.

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Um dia propôs passearmos. Onde houver muitas árvores, respondi. Caminhadas, ar puro, o sem-fim de verdes da floresta, as mãos dadas. Ganhávamos pouco a pouco a certeza um do outro e certos hábitos. Cinema às terças. Visitar o mar quando seus lhos perdiam a cor. Carne-seca e feijão-manteiga quinzenalmente, preparados por ele. Chopin em dias cinzas. Macarronada aos domingos. Assim íamos compondo os dias.

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Choveu sem parar toda a noite. Pela manhã Chopin trouxe o mais triste cinza que já vi. Acordei chorando infinitas coisas. Saudade, talvez, nem sei de quê. Tomei café sem encará-lo. Percebi que perdera o costume de sofrer. Pus-me a bordar iniciais num lenço. Ele me seguiu todo o dia, dividindo o silêncio. À noite, jantar findando, olhos fundos, está triste?, perguntou.  Fiz que sim.   Dói muito?  Dói, você não sente? Sinto você, posso te abraçar? Acenei, apenas, percebendo que dessa vez não tinha restrições a fazer. Dormimos assim e se não era a cura, aliviava bastante.

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Gostaria que conhecesse minha mãe, disse uma tarde. Fomos num fim de semana. A mãe e seus afazeres. Costurava e se ocupava de muitos gatos e pássaros. Em cativeiro só criamos tristezas, disse, como se desculpando pela confusão que os bichos faziam. Jantamos e fomos até a praça, sentamos num banco frente à linha férrea. O trem veio e partiu, voltamos para casa, onde a mãe já adormecera.

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Pela manhã acordei com a algazarra dos pássaros no quarto. Faltava-me seu abraço. Na cozinha o barulho dos grãos nas latas, ela catava arroz, ele feijão, compenetrados. Sentei-me.  Havia pão, manteiga, queijo e geleia sobre a mesa posta. Tomei café em silêncio e fui para junto deles. Um punhado de arroz deslizou em minha direção.

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Após o almoço fizemos pequena sesta. Pegaríamos o trem às três. Na estação a mãe me fitava, os mesmos olhos mansos do filho.   Abraçamo-nos. Só na cabine, o trem em movimento, lembrei-me de que não sabia seu nome.

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Voltamos aos nossos hábitos. Chopin tocou toda a semana. Lemos Fernando Pessoa. Iniciei um casaco de lã para ele, noites frias e tempestade. Numa madrugada iluminada por relâmpagos, despertei subitamente fugida de um pesadelo. Um enorme mal-estar se apossando de mim. Acordou preocupado, o que você tem? Meu corpo sacudia febre, o dele junto. Levantou-se, vou preparar alguma coisa. Fiquei no escuro, saudade da mãe e dele ali na cozinha. Antes eu não sabia que toda a vida procurei por eles. Voltou com compressas, chá e carinho. Depois apanhou o cobertor e me agasalhou. E disse um tanto apreensivo: talvez devêssemos, fazer amor, completei. Fomos, sem nome, quase cegos, mas sem nenhuma pressa, cientes do enorme tempo que levávamos para virar cada página.

Do livro A Palavra em Construção, coletânea, 1992