em algum lugar um cão

em algum lugar

 

Um cachorro late. Pode estar preso ou ter medo do escuro. A casa sem luz e sem sustos. Presto atenção ao arranhar no telhado, pode ser de um morcego, pássaro ou o vento abrindo passagem entre as frestas que o tempo vinca nas paredes. Pode ser também uma lembrança, mas prefiro esquecer. Tudo é quase jeito de fingir não ser. E como não dou atenção aos ruídos eles cessam. Então resta só cachorro arrastando seu latido pela noite.

O cão para de latir e não sobra nada. Vazio e silêncio se beijam e não há como intervir ou modificar este estado de coisas. Só observar o nada, tocar e ser tocado por nada. Prender a respiração. Quase implorar ao cão preso em alguma brecha entre a porteira e a escuridão que volte a latir.

Mas se a boca da noite fez dele um vigia desejante de outros abismos só me resta gritar. E voltar a respirar.

aguando

Agua

 

acordo com a força de uma ideia

rabisco o dia com carvão e lápis de cera

imito pássaros a passarar no céu anil

pratico ser algo coisa ou peixe

entardeço na preguiça do antes e do depois

perco os sapatos

no chão descalço desses dias

esqueço nomes mapas revelações

não há mistério que resista

a dias sem névoa

noites sem ressaca

e um mar imenso ao redor

Chamado

Todas as noites o velho e quase inútil orelhão toca, quem hoje ainda se utiliza de um? Há celulares por todos os lados, roubados e revendidos quase ao mesmo tempo, outros ainda parcelados em cartões de crédito a perder de vista. Quem ainda sai de casa para usar um deles? Para que servem agora? Um lugar para se abrigar momentaneamente da chuva, ler propagandas indecentes, servir de poste para bêbados ou cães.

Fora do tempo, no vazio da noite, ele toca, uma, duas, dez vezes. Unilateralmente, sem objeto, ele chama. Quem liga a esta hora e por que? Quer falar com quem se é um telefone público, próprio para efetuar ligações, não para receber. Número sem endereço na lista, também ela em desuso.

Ainda assim, ou por isso, ele toca. No silêncio da madrugada se transforma em um grito, uma ferida. Ninguém vai lá para saber quem liga, o que deseja. Será que, de tão desesperado, liga por costume, por nada? Será que teme que a solidão devore os que o ouvem, mas não sabem mais como sair de si mesmos?

Ensaio ir até lá. Talvez ainda uma chance. Derrubar estas paredes, arrombar a porta, descer pelas escadas e dizer: Sim?

grão

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.

asilar-se

por alguns sóis

na força do deserto

na sombra pouca

do valor raro

do vaso etrusco

assombrar-se

na vastidão do céu

sem luzes ou cidades

dias sem lua

deixar-se tomar

pela imensa estranha

sensação de ser

um ínfimo grão

e ainda assim

ser tudo

assim assim

jardim-foto

.

não há bússola que não nos perca

                                                 ou relógio que vez ou outra

           não puxe o tempo pra trás

e nos sopre em outra direção

depois da chuva

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(tumblr_mwwauxA6FZ1qdnbr801_500 em-dissoluvel.jpg)

.

o sol volta a brilhar

crianças brincam na praça

pássaros se banham nas poças

o verde fica mais verde

e temos mais um motivo

pra sorrir