Quando 30 = 7

Quando 30 anos produzem 7 livros

Convite Lançamento Ipanema

 

Na década de 80 éramos ávidos buscadores. Queríamos escrever, traduzir em palavras ideias e sentimentos. Enveredar pela prosa e pela poesia, através delas viajar, gritar, resistir, viver para além de sobreviver.

Oficinas literárias, mesmo no Rio de Janeiro, eram raras. Havia uma ótima em Ipanema. Vínhamos de perto e de longe, a distância era apenas uma das dificuldades que encontraríamos no mundo da escrita. Cada um tinha seu trabalho, uns já construindo família, outros ainda em alegres flertes com a vida, todos tão distintos que nem poderíamos imaginar que um dia faríamos 30 anos.

A oficina acabou, órfãos de um espaço que nos acolhesse criamos o nosso. Na casa de Marilena começamos a desenhar o que seria o grupo, quem poderíamos convidar para somar. E foi assim que nos tornamos sete. Com os anos uns deram passos literários maiores, produziram vários livros, outros menos. Juntos publicamos 3 coletâneas, fomos a eventos literários, ministramos e participamos de oficinas. E para muito além do exercício da escrita que nos unia e nos motivava, laços foram se estreitando, num aprendizado de aceitação e construção de amizade.

Agora, 30 anos após nossas primeiras reuniões, como forma de comemorar nossos elos e perseverança no escrever, lançamos 7 livros. Cada autor com sua temática e características. Todos com o desejo de estar juntos nesse momento especial.

O processo durou quase todo o ano, afinal todos temos compromissos e embaraços típicos da cidade grande e da modernidade. Excesso de informação pode confundir, paralisar, e, se não seguramos firmemente o leme dos dias, acabamos por mudar de rumo e adiar a realização dos sonhos. Mas não dessa vez, estávamos firmes no propósito de não nos perdermos.

Nosso barco está prestes a atracar. Nossos poemas, crônicas, contos, novelas, passando por esse mágico processo de transformação em livro – esse objeto palpável, com cheiro de tinta, que brota de nós e segue, independente, por caminhos imprevisíveis.

acerca do tempo ou quase

quase um ano – é muito pouco pode ser demais nem se dar conta que passou durar uma eternidade um nada.

quase – pode anteceder o vir a ser mera desculpa não se revelar estar sempre a ponto de nunca chegar.

lugares para os quais você volta – anos depois – tira o sapato abre a janela reconhece o cheiro da terra a permanência das árvores tudo exatamente como se tivesse saído por instantes.

pessoas que você deixa de ver por um ano e quando encontra é um abismo outras com quem retoma assuntos do mesmo ponto e as raras com quem longas conversas se fiam em silêncio no longe de não ver ou tocar.

quase um ano – pode ser toda uma vida ou uma lembrança que falseia lá no fundo de um baú de fotos notícias ilusões pode ser um barco enveredando por outros mares uma grande mala a espera de um trem uma outra vida.

um ano pode mover o mundo colocar pontos finais abrir caixas de pandora quebrar espelhos ou simplesmente um novo calendário pregado na parede branca dos dias.

voltando

a porta custa a abrir

empurro com força

surgem contas cartas

folhetos propagandas

quase peço desculpas

por invadir tanto abandono

 

o carro não dá partida

a bateria cansou

o ônibus não passa

mudou de itinerário

o celular para o qual ligo

não existe mais

 

 

faz tanto tempo assim?

marítimo 2

p1010087.

a maré sobe

trazendo o barco

que saiu antes do amanhecer

.

a mulher fecha a janela

o homem chega

.

nas mãos o jantar e a rede

no corpo maresia

e entardecer