acerca do tempo ou quase

quase um ano – é muito pouco pode ser demais nem se dar conta que passou durar uma eternidade um nada.

quase – pode anteceder o vir a ser mera desculpa não se revelar estar sempre a ponto de nunca chegar.

lugares para os quais você volta – anos depois – tira o sapato abre a janela reconhece o cheiro da terra a permanência das árvores tudo exatamente como se tivesse saído por instantes.

pessoas que você deixa de ver por um ano e quando encontra é um abismo outras com quem retoma assuntos do mesmo ponto e as raras com quem longas conversas se fiam em silêncio no longe de não ver ou tocar.

quase um ano – pode ser toda uma vida ou uma lembrança que falseia lá no fundo de um baú de fotos notícias ilusões pode ser um barco enveredando por outros mares uma grande mala a espera de um trem uma outra vida.

um ano pode mover o mundo colocar pontos finais abrir caixas de pandora quebrar espelhos ou simplesmente um novo calendário pregado na parede branca dos dias.

voltando

a porta custa a abrir

empurro com força

surgem contas cartas

folhetos propagandas

quase peço desculpas

por invadir tanto abandono

 

o carro não dá partida

a bateria cansou

o ônibus não passa

mudou de itinerário

o celular para o qual ligo

não existe mais

 

 

faz tanto tempo assim?

pistas

siga sábado domingo segunda

pés descalços campo aberto

aproveite a conjunção dos astros

relembre a canção mais antiga

vá até o porto siga pistas

mas não dobre a esquerda

nem aposte tudo

em qualquer disputa

guarde força e vida

para depois