sempre um susto

.

Um avião passou rasante

cheguei a imaginar

um homem de óculos e uma jovem bonita

olhando ávidos ou amedrontados pela janela

.

partir é sempre um susto

.

em seguida uma moto

e seu motorista encapuzado

motor sem escapamento

jaqueta de couro em alta velocidade

ensurdeceram os pássaros já tão raros

.

segui pela beira da praia

tirei os sapatos para sentir melhor

a areia e as águas macias

pés descalços são um jeito bom de chorar

cantarolei … baby, baby, eu sei que é assim…

.

9 de novembro de 2022 –

E quem quiser…

Cansei de fingir felicidade

Usar proparoxítonas e saltos altos

Quem quiser me ver

Terá que atravessar a esquina

Desviar disso e daquilo

Tropeçar na dor

Cair na real sem anestesia

E comigo tatear o escuro

Grafitar muros

E (não) pedir socorro

Investigando

Não há nada sobre nós

Nenhum vestígio

.

De tudo se é que houve tudo

Não sobrou nada

.

Uma cidade que submergiu

Ou virou pó num terremoto

.

Melhor assim

Sem histórias para levar

.

Pesadelos ou sonhos

Nem mortos ou vivos

.

Nada a esconder no vão em que repousam

Os anjos que não vingaram

Violentar o silêncio

Desafi(n)ando

Vieram as fiandeiras

Com seus grandes mantos

A cantar mandingas

Atropelaram o século XXI

Com crucifixos e velhas espadas

Seitas e perseguições medievais

Tudo isso revelado instantaneamente

Nas redes sociais

Tudo colorido e frio

Como num disputado game

Onde cabem fotomontagens

Crimes ortográficos

E atentados à toda lógica

Fora das redes

Entre as grades da miséria

E jogos de guerra

Jorra sangue de verdade

frágil

às vezes você quer me ver e não consegue

ainda que eu esteja bem diante do seu nariz

é que qualquer barulho me assusta

e muitas vezes me ausento

deixo o corpo presente

(como os mortos fazem tão bem)

e mergulho em mim

vou tão fundo que escapo

e o caminho de volta

é uma linha frágil que liga

o Tempo ao tempo

aqui

ali

cárcere privado

.

parto com minha insólita bagagem:

você que preciso enterrar

a passagem só de ida

me desvencilhando deste fardo

não precisarei voltar

abro a cortina dos dias

depois de tanto tempo

presa a sua loucura

foragida de mim

difícil distinguir

o que é fato do que é medo

ainda assim me esforço

estilhaço o espelho que nos assemelha

 me desenlaço desenredo desinvento

e recomeço

cotidianamente

faço como aquela chinesa

que sai todos os dias

pequenos passos  

sem falar ou sorrir

saudades do outro mundo?

.

vago pelas ruas

da cidade pequena

que se esconde na grande cidade

e na areia fina

de uma praia simbólica

.

a passos miúdos

costuro palavras-pensamento

enquanto procuro

meu sapato de salto

que afundou na lama

de um anteontem qualquer

me atraso

agarrada aos contos de fada

que aliviavam a solidão da infância

e imito a chinesa

que volta ao fim da tarde

.

retira sua pele branca

sua fala não dita

seus pezinhos macios

abre a porta ou a página

e parte para dentro do fora

ou para agora nunca mais