frágil

às vezes você quer me ver e não consegue

ainda que eu esteja bem diante do seu nariz

é que qualquer barulho me assusta

e muitas vezes me ausento

deixo o corpo presente

(como os mortos fazem tão bem)

e mergulho em mim

vou tão fundo que escapo

e o caminho de volta

é uma linha frágil que liga

o Tempo ao tempo

aqui

ali

descompasso

Se passo o tempo e ele não passa, amasso o pão que ainda não comprei e sinto o perfume das flores em jardins alheios é surto ou mera distração? Sei que não sei e ainda assim insisto, quase creio, por teimosia talvez, ainda que degastada, numa solução não fanático-partidária, mas não há mais espaço para a inocência de acreditar em governos e saídas. O fim do mundo não tem saída, talvez sequer fim.

Indago o mar sobre o que se passa no horizonte e ele responde em ondas, assim como eu ou você quando indagados sobre nossos destinos, seguimos na mesma pista às vezes sem acostamento, ainda que algum oráculo nos fale por símbolos ou parábolas que caminhos são puro risco, com grandes chances de a nada levar e, ainda que necessários, não adiam a morte se, na agenda dela, você estiver marcado com X.

Reflito sobre o dia D, a solução que não chega, o sonho que já nem lembro. Saio para espairecer num ar quente de dezembro, sem brisa sombra ou alento, conheço de cor a cor suja do meus tênis, a vegetação rala, a maresia, o calor úmido que cola no corpo e se mistura com sensações de tédio ou desespero. A areia é fina, o mar imenso e o mundo segue desabando.

acerca do tempo ou quase

FAZ TANTO TEMPO.JPG

quase um ano – é muito pouco pode ser demais nem se dar conta que passou durar uma eternidade um nada.

quase – pode anteceder o vir a ser mera desculpa não se revelar estar sempre a ponto de nunca chegar.

lugares para os quais você volta – anos depois – tira o sapato abre a janela reconhece o cheiro da terra a permanência das árvores tudo exatamente como se tivesse saído por instantes.

pessoas que você deixa de ver por um ano e quando encontra é um abismo outras com quem retoma assuntos do mesmo ponto e as raras com quem longas conversas se fiam em silêncio no longe de não ver ou tocar.

quase um ano – pode ser toda uma vida ou uma lembrança que falseia lá no fundo de um baú de fotos notícias ilusões pode ser um barco enveredando por outros mares uma grande mala a espera de um trem uma outra vida.

um ano pode mover o mundo colocar pontos finais abrir caixas de pandora quebrar espelhos ou simplesmente um novo calendário pregado na parede branca dos dias.

voltando

sombra

 

a porta custa a abrir

empurro com força

surgem contas cartas

folhetos propagandas

quase peço desculpas

por invadir tanto abandono

 

o carro não dá partida

a bateria cansou

o ônibus não passa

mudou de itinerário

o celular para o qual ligo

não existe mais

 

 

faz tanto tempo assim?

assim assim

jardim-foto

.

não há bússola que não nos perca

                                                 ou relógio que vez ou outra

           não puxe o tempo pra trás

e nos sopre em outra direção

revisitar

sombra

.

há sons que transpassam os dias, chuva no telhado, sussurros, talvez lamentos vindos da madeira dos velhos armários. um galo distante na madrugada, goteiras na pia, rezadeiras em prece. ressonâncias, procissões, ressonares.

divido minha perplexidade em várias, o tempo passa e sigo me surpreendendo. sei que não deveria. mas suspeito que esse é um estado permanente. assim desde menina. ou mesmo antes de mim.

conecto-me, ou tento. religar, relicários. ingresso numa religião pré-pós-fim-do-mundo  e quase duvido dessa realidade que nos prende a matéria. penso nas marionetes, numa rebelião de todas elas.

uma coisa te digo, não é fácil ser profundo, nem profano. num mundo assim tão quase, tão clichê. essa palavra sempre me lembra chicletes. mas não quero me dispersar. difícil caminhar sobre pedras quando nem elas são concretas e assumem suas existências temperamentais. confesso. também sofro de turbulências e intempéries. por isso é sempre conveniente manter os cintos de segurança apertados.

costuro um sentido. na gaveta de bordados minha avó cochila entre um crochê e outro. ao lado dela um enorme carretel de linha crua, um outro de fino cordão dourado. as histórias se costuram sem pontos ou moldes premeditados, talvez sem futuro.

há gavetas para tudo, na maioria etiquetas explicam o óbvio, mas em algumas não posso entrar, acho que perdi a chave de uma meia dúzia. minha avó não pode sair da sua para me ajudar. não entendo uma palavra do que dizem os outros seres que por aqui passam.

tento prestar atenção na previsão do tempo para depois de amanhã. chove torrencialmente agora em algum lugar. nem todo avião cai mas todo voo é risco.   

presentepassado

foto antiga

.

folheio álbuns fotos cartões postais

catalogando:

guardar queimar esconder

e um monte fica sobrando

para um outro olhar

.

invento histórias

para os coadjuvantes

interrogo aqueles que reconheço

e me detenho especialmente

naquela que fui

.

pergunto sem meias palavras

o que dela em mim permanece

enquanto avalio disfarçadamente

o que dela perdi na poeira do tempo

somo divido multiplico

tudo é contundente e inconcluso

.

e no silêncio da noite

volto as fotos preservadas em segredo

caminho por aquele passado

do qual não posso me desfazer

nem decifrar

colocando a vida no lugar

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(tumblr_n7oeyoWiUD1rr2cq6o1_400 em-dissoluvel)

.

o sal no pote de sal

coisas velhas nos sacos de lixo

roupa suja na máquina

os lençóis na cama

livros na estante

de preferência em ordem

alfabética por autor

.

fechar a porta

com cuidado sair 

jogar fora o saco com passados

gastar as horas e a sola dos sapatos

aliviar o coração

tomar água de coco

pra tirar o gosto de fim

. 

abrir a porta com três voltas de chave

recolocar os pingos nos is

a roupa no varal

tomar um banho quente

fazer um chá

e antes de dormir

devolver as estrelas pro céu