entre chegar e partir

procurar bem perto e ao redor

a chave o fruto maduro

o cerne da questão

e fazer o pão

amassar o trigo

amansar a noite

com mil e uma lendas

acerca do tempo e do amor

acompanhar o próprio enterro

certo de que fez aqui

tudo que lhe coube

e se não fez mais

é porque não soube

ou não pode

neste curto longo espaço

entre uma curva

e o depois

game…over??

um dia, não lembro por que, minha filha disse que nossa geração (a minha, não a dela) gastou as utopias possíveis. como eu não a questionasse deu por encerrada a conversa e voltou para o game.

deixei-a envolvida com habitantes de uma cidade futurística e sombria. saí e fui ver o mar. crianças brincavam na areia e pescadores chegavam com iscas, cestos e molinetes. assisti ao pôr do sol e mergulhei em mim pensando no tempo e tentando entender a distância entre tantas coisas.

não podia imaginar, naquela época, que nos transformaríamos em personagens de um jogo sinistro, enfrentando, sem estratégias ou armas, um inimigo invisível e onipresente, enquanto um bando de loucos brinca de dirigir o país para o abismo.

descompasso

Se passo o tempo e ele não passa, amasso o pão que ainda não comprei e sinto o perfume das flores em jardins alheios é surto ou mera distração? Sei que não sei e ainda assim insisto, quase creio, por teimosia talvez, ainda que degastada, numa solução não fanático-partidária, mas não há mais espaço para a inocência de acreditar em governos e saídas. O fim do mundo não tem saída, talvez sequer fim.

Indago o mar sobre o que se passa no horizonte e ele responde em ondas, assim como eu ou você quando indagados sobre nossos destinos, seguimos na mesma pista às vezes sem acostamento, ainda que algum oráculo nos fale por símbolos ou parábolas que caminhos são puro risco, com grandes chances de a nada levar e, ainda que necessários, não adiam a morte se, na agenda dela, você estiver marcado com X.

Reflito sobre o dia D, a solução que não chega, o sonho que já nem lembro. Saio para espairecer num ar quente de dezembro, sem brisa sombra ou alento, conheço de cor a cor suja do meus tênis, a vegetação rala, a maresia, o calor úmido que cola no corpo e se mistura com sensações de tédio ou desespero. A areia é fina, o mar imenso e o mundo segue desabando.

e-smile

no calendário se passaram

quinze dias semanas meses

as portas não batem

o elevador raramente range tudo é quase

máscaras tornaram-se item obrigatório de vestuário

nas poucas vezes que vamos ao front

precisamos estar alertas

tomar cuidado com sutilezas

sem sorrisos algumas frases se afiam e ferem

teremos de mudar o modo de falar

colocar legendas nas brincadeiras

usar emotion icons como nas mensagens

.   

novos manuais de comunicação

serão criados e vendidos em todo lugar

treinamentos on line de como se exprimir sem sorrir

ser afetuoso sem abraços

contornar esse estranho momento

sobreviver nesses quinze dias medos semanas

interrogações meses distâncias anos…

mutantes

passo dias imaginando atos de coragem e rebeldia

dividindo as noites entre momentos de insônia e Netflix

noticiários fazem das mortes placares de jogos um recorde após o outro

há presságios no céu mais límpido

gritos brotam avulsos agredindo o silêncio desse inabitual frio de inverno

e nem chegamos a junho

sempre fomos tropicais alegres e desejantes

agora não sei para onde vamos entre tantas guerras particulares

que invadem nosso espaço já tão cerceado

ficamos à deriva perdemos as certezas que fingíamos ter

e aproveitando o confinamento quase obrigatório

reforçamos nossas tocas estocamos mantimentos

e nos adaptamos às trincheiras 

aguando

Agua

 

acordo com a força de uma ideia

rabisco o dia com carvão e lápis de cera

imito pássaros a passarar no céu anil

pratico ser algo coisa ou peixe

entardeço na preguiça do antes e do depois

perco os sapatos

no chão descalço desses dias

esqueço nomes mapas revelações

não há mistério que resista

a dias sem névoa

noites sem ressaca

e um mar imenso ao redor

acerca do tempo ou quase

FAZ TANTO TEMPO.JPG

quase um ano – é muito pouco pode ser demais nem se dar conta que passou durar uma eternidade um nada.

quase – pode anteceder o vir a ser mera desculpa não se revelar estar sempre a ponto de nunca chegar.

lugares para os quais você volta – anos depois – tira o sapato abre a janela reconhece o cheiro da terra a permanência das árvores tudo exatamente como se tivesse saído por instantes.

pessoas que você deixa de ver por um ano e quando encontra é um abismo outras com quem retoma assuntos do mesmo ponto e as raras com quem longas conversas se fiam em silêncio no longe de não ver ou tocar.

quase um ano – pode ser toda uma vida ou uma lembrança que falseia lá no fundo de um baú de fotos notícias ilusões pode ser um barco enveredando por outros mares uma grande mala a espera de um trem uma outra vida.

um ano pode mover o mundo colocar pontos finais abrir caixas de pandora quebrar espelhos ou simplesmente um novo calendário pregado na parede branca dos dias.