presentepassado

foto antiga

.

folheio álbuns fotos cartões postais

catalogando:

guardar queimar esconder

e um monte fica sobrando

para um outro olhar

.

invento histórias

para os coadjuvantes

interrogo aqueles que reconheço

e me detenho especialmente

naquela que fui

.

pergunto sem meias palavras

o que dela em mim permanece

enquanto avalio disfarçadamente

o que dela perdi na poeira do tempo

somo divido multiplico

tudo é contundente e inconcluso

.

e no silêncio da noite

volto as fotos preservadas em segredo

caminho por aquele passado

do qual não posso me desfazer

nem decifrar

lugar incerto

lugar

.

o céu está carregado

pode ser que chova

talvez um pequeno peixe dourado

salte do aquário nessa hora

não há o que fazer

os mortos saem a passeio

visitam-nos

batendo de porta em alma

trazem notícias

.

o silêncio está cheio de sons

mas não há tradução

nosso vocabulário é pobre

quando se trata do que não sabemos

e nesse lugar tão perto e longe

não há mapas dicionários ou manuais

só uma brisa

pouco mais que um sopro

ou mesmo um nada

lugar 2

do longe

traços

quando o silêncio transborda

ouço seus passos

sua voz chega

do longe do nunca mais

.

 

sua sombra

ainda se esconde

entre as plantas da varanda

às vezes me assusta

outras me entristece

PROMESSAS

costuradas em silêncio
esboços de sombra e luz
traços sutis carinho
passeios por trilhas da memória
escavações e surpresas
.
noites de lua
viagem a um outro país
jardins de inverno sacadas portões
flores brotando ao acaso
temporada de descobertas
.
e nós
pássaros migratórios
esquecemos de partir

cultivar

Tenho questões pendentes

que me esforço por resolver

embora duvide do valor do que se faz

da dor que nada traduz

da espera nos pontos de ônibus

 

Tenho reunido impressões

em fotos em abraços em branco

guardado amores em rascunhos

apostado em noites sem lua

em corpos sem rosto

em rostos sem amargura

 

Tenho feito de tudo um pouco

e pouco me ajudam os mapas

as viagens de qualquer espécie

e os dicionários de antônimos

 

Mas me esforço para sorrir

bilhar junto aos primeiros raios de sol

e embarcar em sonhos e planos

às vezes em alto mar

outras em voos rasantes 

 

Viajo em rios caudalosos

em braços feitos cipó

um dia maremoto outro túnel do tempo

outro ainda lições de silêncio

ou um amor que dura infinito momento

sem tempo sem muros

semente

lunar

no mundo da lua
às vezes atrasada aos fatos
outras chegando tão antes
que não vislumbra o depois
longe longe
lugar branco de silêncio e azul
alhures
habitante que se confunde
intercósmicas estradas
pontes pênseis
sustentadas por sonhos
lua clara noite
um rosto risco no escuro
vagas ondas
nuvens de espuma
que se desmancham
lunares
ares
areias

simples

para interromper um silêncio

podemos  ler algum conto famoso

contar uma piada um causo

 

para corromper o silêncio

podemos mentir ou tirar do baú

segredos que juramos nunca revelar

 

mas se o silêncio for solo fértil  

basta sorrir e nada dizer

pois o que é pleno

simplesmente é