depois da chuva

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(tumblr_mwwauxA6FZ1qdnbr801_500 em-dissoluvel.jpg)

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o sol volta a brilhar

crianças brincam na praça

pássaros se banham nas poças

o verde fica mais verde

e temos mais um motivo

pra sorrir

PROMESSAS

costuradas em silêncio
esboços de sombra e luz
traços sutis carinho
passeios por trilhas da memória
escavações e surpresas
.
noites de lua
viagem a um outro país
jardins de inverno sacadas portões
flores brotando ao acaso
temporada de descobertas
.
e nós
pássaros migratórios
esquecemos de partir

paralelas

lua-e-estrelas
.
Fizemos uma festa
Não exatamente uma festa
Pois a convidada principal
Não poderia estar presente
Ainda que tomasse tudo e sorrisse

Caminhamos na praia
A lua e as estrelas brilhavam sem cachê
Por pura vontade de existir
Em sintonia com o universo

Vi uma estrela cadente
Fiquei feliz ainda que o coração partido
Pedi nada e ao mesmo tempo tudo
É sempre assim na aflição de responder
Em um segundo qual o nosso especial desejo

Neste momento o desejo maior
Não poderia ser satisfeito
Tem coisas da vida que não tem direito
A retoques ou correções

O céu estava lindo de doer
O mar brando ia e vinha em seu eterno repetir
Formávamos um grupo inusitado
Em nenhuma outra circunstância
Estaríamos ali juntos

Pés afundando na areia passos sem motivo
Enquanto uma estrada paralela e clara se desenhava
E nossa amiga seguia por ela
Ao som de pássaros e violinos

(para Denise)

deixe estar

by desenharts (tumblr)

Não desperte o pequeno pássaro
que ele não sabe ainda voar
e pouco entende de predadores
convém deixá-lo assim
na doce ilusão de não ser
.
Apenas cuide para não deixar rastros
que possam servir como pista
para estranhos se aproximarem
e machucá-lo por curiosidade ou carinho
.
Talvez seja melhor mesmo nem voltar
deixe-o quieto frágil indefeso
entregue ao fluxo
das marés do destino

em alguma estação

by in-dissoluvel (tumblr)

by in-dissoluvel (tumblr)

em um lugar improvável

tenho o dia inteiro vazio

e me debruço sobre ele

sobrevoo árvores flores

bebo orvalho sorrisos

e aproveito para conversar

com um pássaro muito distraído

que não percebe que sou gente

.

de algum remoto firmamento

as estrelas caem

e fazem pedidos por nós

em um certo lugar distante

estou sempre mesmo sem estar

vou e volto a todo instante

conto dias horas de voo

sonhos recuperados de antigas enchentes

.

em imprecisos momentos

me detenho e pergunto ao tempo

se um dia terei sossego

ele já nem responde

cansado de minhas incongruências

sabe que fio desfio

e recomeço em outro tear

vê embora não compreenda

quantos caminhos trilhei

e o trabalho que deu

apagar tantas pistas

.

mas não é missão do tempo entender

ele só tem que passar

como um velho e persistente trem

que devagar segue seus trilhos

e quem quiser que vá com ele

 

Prelúdio

Chegou devagar e ficou me olhando até eu me voltar. Então perguntou se poderia ficar. Se não fizer barulho nem me incomodar. Ele ficou, no canto da sala, misturado aos móveis e algumas folhagens. Horas depois, preparando o jantar, lembrei-me dele. Aceita uma sopa ? Estava faminto, dei-lhe leite e pão. Sorriu. Ajudou-me a tirar a mesa e arrumou a cozinha enquanto tomei banho. Voltou para o sofá e esperou. Dei-lhe uma toalha e mostrei o banheiro. No sofá deixei uma blusa e roupa de cama. Pela manhã encontrei o café servido. Tomamos em silêncio, e alguns momentos pousava seus olhos mansos em mim.

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Uma noite acordei e ele estava sentado na beira da cama. Posso ficar aqui? perguntou apontando o lado vazio. Se não se mexer muito. Seu sono veio logo, tranquilo. Acordava sempre antes e deitava-se depois, mal percebia seus movimentos.

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Acostumei-me a ele como às plantas que enchiam a casa de perfume e cor. De seu, acabou trazendo poucas roupas e muitos discos. Posso colocar um? Desde que eu goste e não muito alto. Um som agradável envolveu a casa. Tem outra coisa: em dias nublados e de chuva fina gosto de ouvir Chopin. Não precisei mais abrir os olhos pra saber que chovia, a música inundando o quarto.

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Sempre gostei de ler, pediu-me que o fizesse em voz alta. Só poemas e quando cansar você continua, ele concordou. Romance. Líamos sentados no sofá, às vezes acompanhados por Schumann, outras por Bach, Haydn. Músicas cantadas só a noite, quando cansados dos livros ficávamos a sonhar.

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Um dia propôs passearmos. Onde houver muitas árvores, respondi. Caminhadas, ar puro, o sem-fim de verdes da floresta, as mãos dadas. Ganhávamos pouco a pouco a certeza um do outro e certos hábitos. Cinema às terças. Visitar o mar quando seus lhos perdiam a cor. Carne-seca e feijão-manteiga quinzenalmente, preparados por ele. Chopin em dias cinzas. Macarronada aos domingos. Assim íamos compondo os dias.

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Choveu sem parar toda a noite. Pela manhã Chopin trouxe o mais triste cinza que já vi. Acordei chorando infinitas coisas. Saudade, talvez, nem sei de quê. Tomei café sem encará-lo. Percebi que perdera o costume de sofrer. Pus-me a bordar iniciais num lenço. Ele me seguiu todo o dia, dividindo o silêncio. À noite, jantar findando, olhos fundos, está triste?, perguntou.  Fiz que sim.   Dói muito?  Dói, você não sente? Sinto você, posso te abraçar? Acenei, apenas, percebendo que dessa vez não tinha restrições a fazer. Dormimos assim e se não era a cura, aliviava bastante.

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Gostaria que conhecesse minha mãe, disse uma tarde. Fomos num fim de semana. A mãe e seus afazeres. Costurava e se ocupava de muitos gatos e pássaros. Em cativeiro só criamos tristezas, disse, como se desculpando pela confusão que os bichos faziam. Jantamos e fomos até a praça, sentamos num banco frente à linha férrea. O trem veio e partiu, voltamos para casa, onde a mãe já adormecera.

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Pela manhã acordei com a algazarra dos pássaros no quarto. Faltava-me seu abraço. Na cozinha o barulho dos grãos nas latas, ela catava arroz, ele feijão, compenetrados. Sentei-me.  Havia pão, manteiga, queijo e geleia sobre a mesa posta. Tomei café em silêncio e fui para junto deles. Um punhado de arroz deslizou em minha direção.

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Após o almoço fizemos pequena sesta. Pegaríamos o trem às três. Na estação a mãe me fitava, os mesmos olhos mansos do filho.   Abraçamo-nos. Só na cabine, o trem em movimento, lembrei-me de que não sabia seu nome.

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Voltamos aos nossos hábitos. Chopin tocou toda a semana. Lemos Fernando Pessoa. Iniciei um casaco de lã para ele, noites frias e tempestade. Numa madrugada iluminada por relâmpagos, despertei subitamente fugida de um pesadelo. Um enorme mal-estar se apossando de mim. Acordou preocupado, o que você tem? Meu corpo sacudia febre, o dele junto. Levantou-se, vou preparar alguma coisa. Fiquei no escuro, saudade da mãe e dele ali na cozinha. Antes eu não sabia que toda a vida procurei por eles. Voltou com compressas, chá e carinho. Depois apanhou o cobertor e me agasalhou. E disse um tanto apreensivo: talvez devêssemos, fazer amor, completei. Fomos, sem nome, quase cegos, mas sem nenhuma pressa, cientes do enorme tempo que levávamos para virar cada página.

Do livro A Palavra em Construção, coletânea, 1992

saudade

image by in-dissolúvel (tumblr)

queria dizer o que as palavras não exprimem

.

talvez uma sinfonia consiga
desde que interpretada por uma orquestra ímpar
composta de músicos, pássaros e ilusionistas
.
mesmo longe afago seus cabelos macios
faz parte dos meus dedos, mãos, braços
percorrer-te ainda que não possa te ver
.
somos todos isso e aquilo
somos ondas, vagas, altas
ou ainda só espumas
.
em nossas veias correm sangue e  poesia
(e isso faz de nós seres a parte
colecionadores de pausas,
defensores do ar, do mar, do céu que nos respira
e viajantes repletos de sonhos e vazios)
.
divago
vago
voo
sentindo
pensando
em ti

abismando

Levo no bolso a identidade prescindível

sei de cor nome, endereço, códigos de convivência

investigo a vida das formigas e invejo os pássaros

que enchem minhas tardes sob as árvores

.

Queria esquecer tantas culpas, reinventar palavras

as que conheço não me exprimem

ponho todas no liquidificador e ainda assim não tem suco

soam rasas, não fazem sulcos na terra ou no peito

.

Quero palavras de criar abismos e alternativas

de avizinharem o outro e talvez possuí-lo

de revelarem-se numa obra mútua que a cada olhar

se desfigure e se refaça – roteiro de outra viagem