partimos

uma hora antes da hora
pés arrastando a vida
e alguma história
.
chão feito de rochas
mapa em branco
e nenhuma vara de condão
.
na bagagem
pouco mais que nada
além das asas partidas

instantâneos

Colón – a praça
um pombo caminha
junto a minha sombra
quase sobre mim
como se eu não …
.
paro
se levantasse os braços
e ele não me notasse?
saberia que …
nada de testes
.
aguardo uma retratação
uma exposição de fotos
uma expedição longínqua
para algum território
ou vazio
.
são muitas setas planos motivos
aguardo a última chamada
talvez vá
talvez voe

algo de bom

feche os olhos

nesta varanda

as flores não vão

te deixar morrer

.

ouça o barulho do mar

entoe uma cantiga

conclua aquele pensamento

fugidio

.

confie

rasgue a carta de adeus

a bula do remédio chamado certo

.

relaxe

algo de bom

vai acontecer

.

repare no broto de girassol

em instantes

a casca da semente

vai se romper

.

os seres invisíveis

estão aqui

feche os olhos

para vê-los 

.

as flores sorriem

porque você veio

por você

simples

para interromper um silêncio

podemos  ler algum conto famoso

contar uma piada um causo

 

para corromper o silêncio

podemos mentir ou tirar do baú

segredos que juramos nunca revelar

 

mas se o silêncio for solo fértil  

basta sorrir e nada dizer

pois o que é pleno

simplesmente é  

quase

DSC09420

fim de tarde
quando as possibilidades do dia
já se guardam
para um outro amanhecer
quem sabe?
.
entre as cores do céu
há uma que me esquece de mim
outra que me leva
onde sonhos se perdem
descalços numa areia distante
.
até os pássaros suspendem o canto
nos aquietamos aturdidos alertas
numa atenção perdida
aguardando o desfecho
da luta diária noite-dia
.
sabemos quem vence agora
e quem voltará vitorioso
no próximo round
queria eu também ter
certezas assim
.
fim de tarde
todos os seres suspiram nessa hora
é quase possível perceber (talvez acreditar)
no pulsar das veias nas confissões de amor
no fluir dos rios que nem sempre correm para o mar

quase
a noite ainda na sala de espera

concerto solo

by desenharts (tumblr)

por hoje basta

o morto na rua

o beato na praça

amor e mordaças

a massa de tomate

no bigode e as moscas

caindo num prato

de fundo tédio

por hoje ficamos assim

ficando

eu me acompanho em concerto

pra solidão sem orquestra

amanhã

é uma outra fresta

cansaço

Foto Taylor James
(foto Taylor James)
.

eu queria fazer coisas com sentido, não, coisas que quebrassem o sentido
ditado pelo que já é posto, pelas forças cotidianas que nos fazem fingir
como se isso fosse o melhor de nós, queria matar um a um os meus medos
deletar passados, mostrar meus seios, abrir o peito e dizer sim ou dizer não
se fosse pra frear um trem descarrilhado, parar o tempo um dia antes
de um acidente rodoviário ou vascular, desfazer armadilhas, desatar

queria meu pensamento não tão disperso, intermitente, incontrolável
não me dividisse em dez, em mil, cada uma um olhar, um paradeiro
é difícil viver num planeta de espelhos por todos os lados
que não me repetem a mesma, não, ao contrário, me denunciam múltipla
diversa e ainda assim confinada a essa pele corpo roupagem

preferia não ter ido ao céu pois ele me deu a dimensão do inferno
se tivesse morado na Bolívia, não teria flertado tanto com o inimigo
batido tantas vezes na porta errada, assaltado noites frias
mas o tempo é isso, nada e tudo, um tambor de revolver
eventualmente vazio, potencialmente um tiro, um lugar escuro

está bem, não foi um bom dia, não queria, juro, incomodar ninguém
com essa minha poesia vômito, feita de sertões e dilúvios
verso que se desdobra, confessa e logo em seguida desdiz
passado, futuro, pretérito, conjugações numa língua difícil
onde cada verbo é um mundo ou mero sentido dúbio para uma noite mal dormida

uma gata, uma broa

in-dissoluvel (tumblr)
(in-dissoluvel – tumblr)

.
ao acordar naquela manhã espreguiçou para todos os lados
abriu os dedos dos pés, das mãos, ao máximo, sentiu a umidade do ar,
pressentiu o vento que ainda era só sugestão, chamou por Elena
que se manteve distante, soberana de seu lugar na janela,
sabedora de coisas que ninguém mais vê.

mexeu os dedos dos pés, não todos, alguns, mesmo com grande esforço,
parecem avessos a qualquer comando, como acontece, às vezes, com o coração,
mas não pensou nisso, na verdade tem praticado um misto de alegria e vazio,
mansidão e poesia, inspira-se eventualmente em Elena, no que acha que se
passa na sua cabeça felina, atenta e distante ao mesmo tempo. espelha-se
nela e jura não querer mais se enredar em paixões, enveredar por contas que
nunca fecham.

ao acordar percebeu que não era tão cedo, o frescor da madrugada já tinha
partido, havia uma ligeira brisa, um ar pesado e úmido, prenunciando vento,
talvez chuva. espreguiçou e moveu todo o corpo, exceto alguns dedos que
parecem ter uma existência própria e inerte, afastada de tudo o mais e
talvez sem significado, levantou e fez um café forte com gengibre. Elena
seguia empoleirada na janela, lambia as patas e voltava ao seu nada habitual.
um jeito nada de ser, pensou, invejando-a um pouquinho.

gostava de acreditar que Elena filosofava sobre coisas como ser ou não ser
gata doméstica, algumas vezes desaparecia por dias, sabia da possibilidade
de um dia ela optar por seguir outros destinos, pular num quintal, avaliar
que a vida em janelas é muito restrita, que prefere saltar por aí.

sentiria falta, claro, do mistério de ser de Elena, mas ainda assim
espreguiçaria pela manhã, faria café, manteria sua pequena horta livre de
mato, aguardaria com o coração leve os primeiros dias da primavera, a hora
de colher o brócolis, o alho poró, o tempo das jabuticabas.

ao acordar naquela manhã não percebeu nada diferente, a não ser o ligeiro
vento insinuando uma possível chuva, apenas levantou como sempre e seguiu
a agenda inscrita na pele dos dias.

estava lá, em algum lugar, o desejo de fazer pão. juntou os ingredientes,
limpou a bancada, abriu a janela onde Elena já não estava, abriu a porta por
onde Pingo entrou abanando o rabo de felicidade. Tão diversos: Elena e Pingo.

juntou a farinha, a água, o fermento, misturou aos poucos, brincando com as
formas que iam surgindo, virando, batendo, procurando a textura, o ponto,
o corpo ajudando o movimento das mãos. em seguida deixou a massa no canto,
coberta com um ligeiro pano. ela iria descansar e crescer.

ter como destino ser uma broa, um pão. Pingo se sabia cachorro ?. Elena sabia
sua natureza arredia, mesmo que fosse só por instinto. e ela, o que sabia
de si ? que no dia seguinte espreguiçaria e faria café e cuidaria das plantas
e zelaria pelo dia até que fosse novamente hora de dormir. E se um dia foi
como a massa que ao descansar cresce, já não era.

Há muito tempo permanecia do mesmo tamanho.

pra mim

Ryan Hewett

Ryan Hewett

se fosse pra mim

o recado o sonho o chamado

partiria agora

em uma nave especial

lotada de poemas e doidices

não esperava sequer o avião

(ultimamente a neblina tem atrasado

ou mesmo cancelado voos)

 

voltava a velha casa

tirava as asas do porão

pedia aos pássaros dicas sobre o caminho

saltava da Pedra da Gávea

e ia beirando as praias

até bater na sua janela

e com a ajuda dos amigos alados

fazia ninho no seu coração