presentepassado

foto antiga

.

folheio álbuns fotos cartões postais

catalogando:

guardar queimar esconder

e um monte fica sobrando

para um outro olhar

.

invento histórias

para os coadjuvantes

interrogo aqueles que reconheço

e me detenho especialmente

naquela que fui

.

pergunto sem meias palavras

o que dela em mim permanece

enquanto avalio disfarçadamente

o que dela perdi na poeira do tempo

somo divido multiplico

tudo é contundente e inconcluso

.

e no silêncio da noite

volto as fotos preservadas em segredo

caminho por aquele passado

do qual não posso me desfazer

nem decifrar

coisas banais? talvez

enforcado.

 diante dos últimos acontecimentos  tenho poucas opções, ou muitas. o  momento é importante, já  nascendo histórico, talvez não  convenha perder o mote ou  amotinar-se ou ainda cair em si,  envergar-se, avaliar percursos,  varrer pra não sei onde as asas dos  grandes voos.

 me detenho diante da tela desses  dias e cogito ir ao cinema ver um  bom filme sobre qualquer coisa que não seja corrupção ou guerras, caminhar na areia sem arrastão ou policiais de bermuda, não ir as passeatas agendadas contra ou a favor, onde multidões se amontoam, apoiando isso ou aquilo enquanto as cartas dos baralhos se misturam e não sabemos mais quem é o rei de espadas, a rainha de copas, o louco ou o enforcado.  posso também tomar sorvete, estocar pipoca, ruminar sobre as razões que levam pessoas a querer mais e mais e mais, sem saber nem mesmo o quê.

independente e mesmo indiferente a tudo isso minhas unhas continuam a crescer, apesar de eu roê-las quase involuntariamente. não tenho barba, quem a possui deve ter uma preocupação a mais, em compensação problemas a menos no enfrentamento do dia-a-dia já que seu lugar ao sol  é mais seguro ou definido há muito mais tempo. talvez. entre o universo masculino e o feminino há um território de angústias. muitas semelhanças, distâncias, incompletudes, talvez. talvez. acho muito pertinente entremear esta palavra em todos os pronunciamentos,  avaliações, sentimentos, pressentimentos, opiniões. não é ficar em cima do muro, mas perceber que também ele é movediço.

.

talvez é um exercício da fantasia. sendo uma andorinha ao menos uma vez experimentaria voar só, talvez fizesse outono assim. saltando de paraquedas esperaria o último instante para abri-lo provando o sabor do risco e da possibilidade. se fosse um marinheiro desejaria morrer numa tempestade ou mergulhando fundo em mim. talvez. ou não.

pois pode muito bem um vento bom acariciar o rosto e brotar uma vontade de sorrir e abraçar pessoas. uma canção nova colorir um sonho antigo e dar coragem pra seguir viagem.

tocar o azulilás do entardecer, virar a página daquele velho romance, olhar o mundo de dentro de uma bolha de sabão pode não mais bastar. talvez.

a primavera na varanda dos dias, a vida que escoa na ampulheta de cada um de nós.

insone

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.

a noite passeia

por corredores

de casas estranhas

hotéis sem estrelas

hospitais abandonados

sem paz

a mente vaga

repete cenas

alimenta dúvidas

sem trégua

o corpo desiste

exausto o sono chega

mas não acolhe

colocando a vida no lugar

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.

o sal no pote de sal

coisas velhas nos sacos de lixo

roupa suja na máquina

os lençóis na cama

livros na estante

de preferência em ordem

alfabética por autor

.

fechar a porta

com cuidado sair 

jogar fora o saco com passados

gastar as horas e a sola dos sapatos

aliviar o coração

tomar água de coco

pra tirar o gosto de fim

. 

abrir a porta com três voltas de chave

recolocar os pingos nos is

a roupa no varal

tomar um banho quente

fazer um chá

e antes de dormir

devolver as estrelas pro céu

lugar incerto

lugar

.

o céu está carregado

pode ser que chova

talvez um pequeno peixe dourado

salte do aquário nessa hora

não há o que fazer

os mortos saem a passeio

visitam-nos

batendo de porta em alma

trazem notícias

.

o silêncio está cheio de sons

mas não há tradução

nosso vocabulário é pobre

quando se trata do que não sabemos

e nesse lugar tão perto e longe

não há mapas dicionários ou manuais

só uma brisa

pouco mais que um sopro

ou mesmo um nada

lugar 2

quadratura

 

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estou um pouco sem palavras

diante do ódio o que dizer?

estamos todos um pouco mais ocos

o eco de tantas tragédias ensurdece

compromete estruturas

já um pouco frágeis

.

um pouco mais cética

assustada

onde acontecerá e quando

o próximo ataque ?

de lama bombas ódio medo ?

e para onde ir?

abrigo debaixo da terra

passagem pra Marte

nova guerra contra tantas guerras?

.

sem palavras

sem ação

e na ampulheta

o tempo

se esvaindo

no escurecer

neste exato momento

estou roubando algo

não uso armas

só ouvidos

.

e não o faço

por simples curiosidade

no fundo não me interessam

as histórias particulares

.

o que me fascina

é perceber que somos (e não somos)

tolos frágeis humanos

algumas vezes bárbaros

reconstrução

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desta vez inicio a casa pelo chão

não mais telhados de vidro

sobre castelos de areia

.

tijolo a tijolo

vigas concreto cinta

colete a prova de dor

.

o mar a bater bem perto

a lembrar que o horizonte

está sempre logo ali