cenário

no meu calçadão

quando faz sol

há sempre o homem calvo

o ciclista paramentado

o gari cansado

e a jovem de cabelo azul

 

em dias nublados

além destes

aparece o senhor de bengala

com o garoto do velocípede

um bebê no carrinho

tudo assim igual igual

 

muito raramente

um novo personagem surge

e muda o rumo dos ventos

minha forma de andar

os horários do meu dia

o meu dia

coisas banais? talvez

enforcado.

 diante dos últimos acontecimentos  tenho poucas opções, ou muitas. o  momento é importante, já  nascendo histórico, talvez não  convenha perder o mote ou  amotinar-se ou ainda cair em si,  envergar-se, avaliar percursos,  varrer pra não sei onde as asas dos  grandes voos.

 me detenho diante da tela desses  dias e cogito ir ao cinema ver um  bom filme sobre qualquer coisa que não seja corrupção ou guerras, caminhar na areia sem arrastão ou policiais de bermuda, não ir as passeatas agendadas contra ou a favor, onde multidões se amontoam, apoiando isso ou aquilo enquanto as cartas dos baralhos se misturam e não sabemos mais quem é o rei de espadas, a rainha de copas, o louco ou o enforcado.  posso também tomar sorvete, estocar pipoca, ruminar sobre as razões que levam pessoas a querer mais e mais e mais, sem saber nem mesmo o quê.

independente e mesmo indiferente a tudo isso minhas unhas continuam a crescer, apesar de eu roê-las quase involuntariamente. não tenho barba, quem a possui deve ter uma preocupação a mais, em compensação problemas a menos no enfrentamento do dia-a-dia já que seu lugar ao sol  é mais seguro ou definido há muito mais tempo. talvez. entre o universo masculino e o feminino há um território de angústias. muitas semelhanças, distâncias, incompletudes, talvez. talvez. acho muito pertinente entremear esta palavra em todos os pronunciamentos,  avaliações, sentimentos, pressentimentos, opiniões. não é ficar em cima do muro, mas perceber que também ele é movediço.

.

talvez é um exercício da fantasia. sendo uma andorinha ao menos uma vez experimentaria voar só, talvez fizesse outono assim. saltando de paraquedas esperaria o último instante para abri-lo provando o sabor do risco e da possibilidade. se fosse um marinheiro desejaria morrer numa tempestade ou mergulhando fundo em mim. talvez. ou não.

pois pode muito bem um vento bom acariciar o rosto e brotar uma vontade de sorrir e abraçar pessoas. uma canção nova colorir um sonho antigo e dar coragem pra seguir viagem.

tocar o azulilás do entardecer, virar a página daquele velho romance, olhar o mundo de dentro de uma bolha de sabão pode não mais bastar. talvez.

a primavera na varanda dos dias, a vida que escoa na ampulheta de cada um de nós.

ordenador

DSCN1061

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uma agenda velha

e seus acontecimentos póstumos

planos para um futuro

passado

.

reuniões horários

endereços entrevistas

números e senhas

sem mais motivo

.

um jeito cansado

de se guiar pelos dias

e não perder o rumo

.

e na última página

uma lista de coisas

que não couberam no ano