acerca do tempo ou quase

FAZ TANTO TEMPO.JPG

quase um ano – é muito pouco pode ser demais nem se dar conta que passou durar uma eternidade um nada.

quase – pode anteceder o vir a ser mera desculpa não se revelar estar sempre a ponto de nunca chegar.

lugares para os quais você volta – anos depois – tira o sapato abre a janela reconhece o cheiro da terra a permanência das árvores tudo exatamente como se tivesse saído por instantes.

pessoas que você deixa de ver por um ano e quando encontra é um abismo outras com quem retoma assuntos do mesmo ponto e as raras com quem longas conversas se fiam em silêncio no longe de não ver ou tocar.

quase um ano – pode ser toda uma vida ou uma lembrança que falseia lá no fundo de um baú de fotos notícias ilusões pode ser um barco enveredando por outros mares uma grande mala a espera de um trem uma outra vida.

um ano pode mover o mundo colocar pontos finais abrir caixas de pandora quebrar espelhos ou simplesmente um novo calendário pregado na parede branca dos dias.

passa boi passa boiada

miró
(miró)
.
caminho por entre estranhos
tirando fino da sorte da dor
das notícias e do tédio
passo noites em claro
digerindo o óbvio
dirigindo uma história
um pouco drama um pouco farsa
na falta do que ser sou poeta
fujo do sério passo do severo fuso
de cabeça pra baixo me sinto melhor
o sangue desce as ideias gozam
a hora invertida me dá tempo de sobra
e da janela do meu quarto
fincado num alto prédio
fico a ver navios e trens
maria-nuvem maria-fumaça

(do livro fronteiras)

em alguma estação

by in-dissoluvel (tumblr)

by in-dissoluvel (tumblr)

em um lugar improvável

tenho o dia inteiro vazio

e me debruço sobre ele

sobrevoo árvores flores

bebo orvalho sorrisos

e aproveito para conversar

com um pássaro muito distraído

que não percebe que sou gente

.

de algum remoto firmamento

as estrelas caem

e fazem pedidos por nós

em um certo lugar distante

estou sempre mesmo sem estar

vou e volto a todo instante

conto dias horas de voo

sonhos recuperados de antigas enchentes

.

em imprecisos momentos

me detenho e pergunto ao tempo

se um dia terei sossego

ele já nem responde

cansado de minhas incongruências

sabe que fio desfio

e recomeço em outro tear

vê embora não compreenda

quantos caminhos trilhei

e o trabalho que deu

apagar tantas pistas

.

mas não é missão do tempo entender

ele só tem que passar

como um velho e persistente trem

que devagar segue seus trilhos

e quem quiser que vá com ele