sépia

image by in-dissoluvel (tumblr)

Eu o encontrei por acaso, no álbum de um amigo no facebook. Amigo, não exatamente, conhecido. Estava sem ter o que fazer, o tédio invadindo a sala, fugi para o escritório e sentei diante do laptop. Que permanecia em dormente latência há não sei quantos dias.

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Entrei, o facebook logo na primeira página, programei isso alguma vez, não sei bem porquê. Naveguei distraidamente por várias mensagens. Havia uma desse quase amigo. Uma foto com algumas pessoas em festa, um aniversário, talvez. Fui passando as fotos, tão fácil como entediante. Só clicando na seta do lado direito. Passei rápido, voltei. Fui a frente, voltei. Quem, quem ? Será … Será ?

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Repeti várias vezes esta operação, dei zoom e distorci tudo. Voltei. Arrastei a foto para o Picasa, ampliei, quem, quem… será ? Copiei para o photoshop pirata que deixei de usar faz algum tempo. Ampliei, mudei, preto e branco, sépia. Lembranças. Em sépia o mundo é mais nostálgico. Em preto e branco difícil não se conectar ao passado. Tentei melhorar a imagem, talvez quisesse que ela voltasse no tempo, para aquele dia.Desisti.

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Passei para o pen drive. Bati na casa do Rafa. Me explico. Rafa é um amigo da geração 90. Nasceu com hora, minutos e segundos marcados em relógio digital. Antes do velocípede ganhou um vídeo game. Andou sem engatinhar. Escreveu seu nome via teclado antes de saber fazê-lo com papel e lápis. Entende de máquinas,  e já sonhou, remotamente, em casar-se com uma, num futuro absurdo para mim e para ele plenamente viável.

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Nos encontramos por acaso há algum tempo, no elevador que é o lugar mais perto da distância, e a distância mais próxima e incômoda possível do seu vizinho de porta, com quem você troca lacônicos bons dias, eventualmente um boa noite. No mundo classe média não falta açúcar na casa de ninguém, nem sal. Se faltar, um número na geladeira poderá salvar a situação: entregas vinte e quatro horas. Ninguém jamais baterá na sua porta durante o dia, muito menos a noite. A solidão pode arrastar os pés no cômodo ao lado a noite inteira, todos fingirão não notar. Ninguém surgirá na sua porta pedindo ajuda e você, por sua vez, talvez se enforque no lustre, mas sem acender a luz, para não incomodar.

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A única chance de faltar alguma coisa é na vigésima quinta hora. Nesta não há farmácia, restaurante ou motoboy de plantão. Foi nessa hora que nos encontramos uma vez. Em definitivo.

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Já nos tínhamos não encontrado diversas vezes no elevador ou no portão do prédio. Umas cinco ou seis vezes, ao menos, nestes últimos três ou quatro anos. Uma média alta, levando em consideração que, nestes anos, não cheguei a cruzar com mais da metade dos moradores. Talvez até nos tivéssemos não visto no calçadão, pois ele me contou certa vez que costuma sair antes do nascer do sol e esperá-lo na praia. Já fiz isso também em madrugadas de insone inquietude. Ainda assim não nos tínhamos visto.

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Mas tudo muda se acontece nessa hora extraordinária. Cheguei tarde nesse dia, muito. Acontecera algo que eu precisava esquecer, então varei a noite cruzando avenidas, ruas, ruelas, praças. Vaguei o suficiente para que o cansaço entorpecesse meu senso e me fizesse crer ter esquecido. Voltei, exausta, quase leve, precisando dormir.

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Também o Rafa, nessas coincidências nas quais os místicos não crêm, vivia a sua hora sem cronografia. Eu largara o carro numa praça ainda longe de casa, precisava respirar, olhar o mar, aguar. Ele vinha a pé de não sei onde. Devia vir de longe, tinha a roupa amarfanhada, os olhos vermelhos, os cabelos revoltos.

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No silêncio único dessa hora onde pouquíssimas pessoas transitam, ouvi passos. Ele também ouviu. Acabamos contando, eram quatro, diferenciados, num ritmo dois por dois, às vezes um outro ritmo, nervoso, sem rima. Dividimos compassos, cem passos, sem passos. Concentrados, dispersos.

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Entramos juntos no hall, o porteiro sonolento, o elevador a nossa espera. Nos vimos então pela primeira vez quando nos reconhecemos os donos dos passos diáfanos na madrugada. Comparsas de um segredo raro, de uma hora inexata.

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O elevador não saiu do lugar, não tínhamos dado partida. Marcamos, então, cada um, um andar, casual, improvável. Nem meu nem dele. Depois a lógica se fez presente. Apertamos os andares corretos e saímos, os dois, no meu. Ele me pediu a chave, eu ofereci a boca.

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Nos entregamos por que nessa hora que extravasa não há lugar para disfarces, nem explicações. Atravessamos o dia juntos, mudos, aturdidos com o tempo-hiato que nos unira. Esqueci completamente daquilo que queria esquecer. Os cabelos dele, eu penteei. Traçamos ali um projeto para nossa amizade. Brincamos com a sonoridade das palavras sem significado, com as sombras que projetamos nas paredes. Construímos e descontruímos.

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Agora, diante do passado preto e branco e da saudade sépia me arremesso ao andar debaixo com o passado na mão direita. Não sei e não me importa saber se há lugar para mim no dia comum do Rafael. Ele me recebe, alheio aos olhares da família que nos cobra bom senso e razoabilidade. Não somos, gostaria de dizer a todos, conjugamos verbos que nem existem, sonhamos com o implausível e sim, por que não, nos amamos na vigésima quinta hora de incertos dias.

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Mas agora estou aflita com o preto e branco, com o sépia, com a dor que irrompe do fundo de alguma represa esquecida. Mostro ao Rafa o pen drive. Ele me leva ao quarto, os olhares dos pais como fumaça, escurecem a nossa passagem, percebo, mas não ligo, envolta em densa neblina.

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Pacientemente abre o arquivo, recorta a foto, amplia, aumenta a nitidez, olha pra mim. Sabe pelo meu aniquilamento uma história que, por ser jovem, ainda viverá também. Todos um dia sofremos, digo a ele, quase como para justificar meu entorpecimento. Agradeço, peço desculpas pela invasão, pela hora. Ele dá de ombros, fica brincando com a foto que passou para seu computador. Colore, descolore, fragmenta, corta a cabeça de um, os pés do outro. Desfigura a imagem que me atormenta. A esfumaça. Captura aleatoriamente outras fotos, imagens de ninguém, numa tentativa de arrancar dos meus olhos a figura que me desintegra.

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Beijo seus cabelos agora organizados, fio sobre fio, cheiro de shampoo da Mônica. Ele sorri, usei o shampoo da minha irmã. É, ele tem uma irmã pequena, de um casamento posterior do pai ou da mãe. Cheira a bebê e curvado sobre o computador parece ter cem anos. Lembro que antes da porta que me levará ao meu próprio ninho existe uma família atordoada com a minha presença. Rafael publica no meu facebook palavras inventadas de um amor idem. Saio de olhos fechados, acreditando que se não olhar para eles não serei vista.

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No meu apartamento, no exato quarto sobre o dele, revejo o amor passado, o sépia do romance, o vermelho se tornando negro, o cinza que a tudo sucedeu. Os muitos anos e os exercícios de esquecer.

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A campainha não toca. Um ligeiro arranhar na porta, apenas. Atravesso o corredor. O meu velho e imponente relógio não anunciará essa hora. Começo a me acostumar com os dias inexatos, que saltam pedaços e avançam pela vigésima quinta hora.

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