Todas as noites o velho e quase inútil orelhão toca, quem hoje ainda se utiliza de um? Há celulares por todos os lados, roubados e revendidos quase ao mesmo tempo, outros ainda parcelados em cartões de crédito a perder de vista. Quem ainda sai de casa para usar um deles? Para que servem agora? Um lugar para se abrigar momentaneamente da chuva, ler propagandas indecentes, servir de poste para bêbados ou cães.

Fora do tempo, no vazio da noite, ele toca, uma, duas, dez vezes. Unilateralmente, sem objeto, ele chama. Quem liga a esta hora e por que? Quer falar com quem se é um telefone público, próprio para efetuar ligações, não para receber. Número sem endereço na lista, também ela em desuso.

Ainda assim, ou por isso, ele toca. No silêncio da madrugada se transforma em um grito, uma ferida. Ninguém vai lá para saber quem liga, o que deseja. Será que, de tão desesperado, liga por costume, por nada? Será que teme que a solidão devore os que o ouvem, mas não sabem mais como sair de si mesmos?

Ensaio ir até lá. Talvez ainda uma chance. Derrubar estas paredes, arrombar a porta, descer pelas escadas e dizer: Sim?

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