verde

de blusa verde
saio para o dia
de um azul claro e límpido
.
o discreto inverno tropical
inventa cores no céu
e desenha um lugar
quieto e pleno
entre cobertas
e descobertas

varanda

“O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?”
“Isso depende muito de para onde você quer ir”, respondeu o Gato.

enquanto leio

poemas avessos

talvez meus

um gato azul

me observa

distraidamente atento

sei que não ri de mim

nem se apercebe

que meu mundo ruiu

apenas se joga

da varanda

com seus olhos puxados

e seu pelo furta-cor

duo

o dia passa

você nem vê

dedilha o piano

juntos sonham segredam

.

a noite cai

a música persiste

infiltrada nos móveis

da sala dos meus afetos

.

do longe da minha janela

te adivinho debruçado

no teclado branco brando

mãos compridas dedos ágeis

.

o som embala o tempo

o romance que leio

e me leva onde moram

coisas belas

navegar

mar.

sei de você detalhes

assimilados de súbito

sem muitos preâmbulos

ou divagações

.

do longe que se impôs

observo dias mais longos

porque noites vazias

e ainda assim pouco sei

.

sentir é mais que saber

embora quase sempre

seja necessário nomear

.

mas andava sem palavras

e o abraço funcionou como senha

para que nosso barco ainda em esboço

se atirasse ao mar