de blusa verde
saio para o dia
de um azul claro e límpido
.
o discreto inverno tropical
inventa cores no céu
e desenha um lugar
quieto e pleno
entre cobertas
e descobertas
Autor: rapadura carioca
anotações
anoto tudo
o ponto o suspiro
o pingo d’água
na tempestade
o copo cheio
pavio curto
.
anoto pra não perder
o chão na curva
derrapar no vento
escorregar por entre
os ágeis dedos
da fantasia
varanda
“O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?”
“Isso depende muito de para onde você quer ir”, respondeu o Gato.
enquanto leio
poemas avessos
talvez meus
um gato azul
me observa
distraidamente atento
sei que não ri de mim
nem se apercebe
que meu mundo ruiu
apenas se joga
da varanda
com seus olhos puxados
e seu pelo furta-cor
escolha
fica e esquece
ou parte e carrega
o fardo como lembrança
.
ou ainda
respira fundo
e aguarda
.
que o tempo
dissipe
as ilusões
.
e novas cores
se desenhem
depois da chuva
possibilidades
faça o favor de entrar
a casa não tem cantos
onde se esconder
mas tem curvas pêndulos
espelhos túneis abóbodas
e lâmpadas maravilhosas
não convém acordar
faz um tempo frio lá fora
os jornais que a madrugada espalha
só trazem estragos
a pista é asfalto molhado
e o nada parou indeciso
à beira do dia
duo
o dia passa
você nem vê
dedilha o piano
juntos sonham segredam
.
a noite cai
a música persiste
infiltrada nos móveis
da sala dos meus afetos
.
do longe da minha janela
te adivinho debruçado
no teclado branco brando
mãos compridas dedos ágeis
.
o som embala o tempo
o romance que leio
e me leva onde moram
coisas belas
navegar
.
sei de você detalhes
assimilados de súbito
sem muitos preâmbulos
ou divagações
.
do longe que se impôs
observo dias mais longos
porque noites vazias
e ainda assim pouco sei
.
sentir é mais que saber
embora quase sempre
seja necessário nomear
.
mas andava sem palavras
e o abraço funcionou como senha
para que nosso barco ainda em esboço
se atirasse ao mar
