encontro

tumblr-in-dissoluvel. jullietth2

(tumblr-in-dissoluvel-jullietth2)

.

não espere amanhã

me encontre ainda que tarde

do outro lado da rua

da viagem que talvez nem faça

te espero no bar da esquina

na curva de tantas lembranças

vontade de virar a noite

desfiando histórias

.

tenho umas ideias

quem sabe delas não sai

um livro um filme

uma flor

preciso te contar

dividir esse encanto

passa boi passa boiada

miró
(miró)
.
caminho por entre estranhos
tirando fino da sorte da dor
das notícias e do tédio
passo noites em claro
digerindo o óbvio
dirigindo uma história
um pouco drama um pouco farsa
na falta do que ser sou poeta
fujo do sério passo do severo fuso
de cabeça pra baixo me sinto melhor
o sangue desce as ideias gozam
a hora invertida me dá tempo de sobra
e da janela do meu quarto
fincado num alto prédio
fico a ver navios e trens
maria-nuvem maria-fumaça

(do livro fronteiras)

paralelas

lua-e-estrelas
.
Fizemos uma festa
Não exatamente uma festa
Pois a convidada principal
Não poderia estar presente
Ainda que tomasse tudo e sorrisse

Caminhamos na praia
A lua e as estrelas brilhavam sem cachê
Por pura vontade de existir
Em sintonia com o universo

Vi uma estrela cadente
Fiquei feliz ainda que o coração partido
Pedi nada e ao mesmo tempo tudo
É sempre assim na aflição de responder
Em um segundo qual o nosso especial desejo

Neste momento o desejo maior
Não poderia ser satisfeito
Tem coisas da vida que não tem direito
A retoques ou correções

O céu estava lindo de doer
O mar brando ia e vinha em seu eterno repetir
Formávamos um grupo inusitado
Em nenhuma outra circunstância
Estaríamos ali juntos

Pés afundando na areia passos sem motivo
Enquanto uma estrada paralela e clara se desenhava
E nossa amiga seguia por ela
Ao som de pássaros e violinos

(para Denise)

janeiro

tumblr_belleshaw
(tumblr-belleshaw)

.

parecia enfim o começo

as cortinas da natureza abertas

chão de terra pés descalços

um teto a construir com calma alegria

um abraço pleno desarmado

.
os dias despertavam

enlaçados um no outro

as peças dessa vida quebra-cabeça

se encaixando

.

já sabíamos algumas trilhas florestas

cantilenas do sertão e praias só nossas

o arco íris bem a frente

era só seguir confiar e tecer

um mundo de partilhas

.

anotei nossas promessas e nomes

no velho caderno sem pauta

limpei as vidraças do coração

e com um sorriso límpido

parti acreditando

.

não sei se foi o vento sudeste

as folias do Carnaval

ou as águas antecipadas de março

que arrastaram os sonhos

até as pedras

quase

DSC09420

fim de tarde
quando as possibilidades do dia
já se guardam
para um outro amanhecer
quem sabe?
.
entre as cores do céu
há uma que me esquece de mim
outra que me leva
onde sonhos se perdem
descalços numa areia distante
.
até os pássaros suspendem o canto
nos aquietamos aturdidos alertas
numa atenção perdida
aguardando o desfecho
da luta diária noite-dia
.
sabemos quem vence agora
e quem voltará vitorioso
no próximo round
queria eu também ter
certezas assim
.
fim de tarde
todos os seres suspiram nessa hora
é quase possível perceber (talvez acreditar)
no pulsar das veias nas confissões de amor
no fluir dos rios que nem sempre correm para o mar

quase
a noite ainda na sala de espera

uma gata, uma broa

in-dissoluvel (tumblr)
(in-dissoluvel – tumblr)

.
ao acordar naquela manhã espreguiçou para todos os lados
abriu os dedos dos pés, das mãos, ao máximo, sentiu a umidade do ar,
pressentiu o vento que ainda era só sugestão, chamou por Elena
que se manteve distante, soberana de seu lugar na janela,
sabedora de coisas que ninguém mais vê.

mexeu os dedos dos pés, não todos, alguns, mesmo com grande esforço,
parecem avessos a qualquer comando, como acontece, às vezes, com o coração,
mas não pensou nisso, na verdade tem praticado um misto de alegria e vazio,
mansidão e poesia, inspira-se eventualmente em Elena, no que acha que se
passa na sua cabeça felina, atenta e distante ao mesmo tempo. espelha-se
nela e jura não querer mais se enredar em paixões, enveredar por contas que
nunca fecham.

ao acordar percebeu que não era tão cedo, o frescor da madrugada já tinha
partido, havia uma ligeira brisa, um ar pesado e úmido, prenunciando vento,
talvez chuva. espreguiçou e moveu todo o corpo, exceto alguns dedos que
parecem ter uma existência própria e inerte, afastada de tudo o mais e
talvez sem significado, levantou e fez um café forte com gengibre. Elena
seguia empoleirada na janela, lambia as patas e voltava ao seu nada habitual.
um jeito nada de ser, pensou, invejando-a um pouquinho.

gostava de acreditar que Elena filosofava sobre coisas como ser ou não ser
gata doméstica, algumas vezes desaparecia por dias, sabia da possibilidade
de um dia ela optar por seguir outros destinos, pular num quintal, avaliar
que a vida em janelas é muito restrita, que prefere saltar por aí.

sentiria falta, claro, do mistério de ser de Elena, mas ainda assim
espreguiçaria pela manhã, faria café, manteria sua pequena horta livre de
mato, aguardaria com o coração leve os primeiros dias da primavera, a hora
de colher o brócolis, o alho poró, o tempo das jabuticabas.

ao acordar naquela manhã não percebeu nada diferente, a não ser o ligeiro
vento insinuando uma possível chuva, apenas levantou como sempre e seguiu
a agenda inscrita na pele dos dias.

estava lá, em algum lugar, o desejo de fazer pão. juntou os ingredientes,
limpou a bancada, abriu a janela onde Elena já não estava, abriu a porta por
onde Pingo entrou abanando o rabo de felicidade. Tão diversos: Elena e Pingo.

juntou a farinha, a água, o fermento, misturou aos poucos, brincando com as
formas que iam surgindo, virando, batendo, procurando a textura, o ponto,
o corpo ajudando o movimento das mãos. em seguida deixou a massa no canto,
coberta com um ligeiro pano. ela iria descansar e crescer.

ter como destino ser uma broa, um pão. Pingo se sabia cachorro ?. Elena sabia
sua natureza arredia, mesmo que fosse só por instinto. e ela, o que sabia
de si ? que no dia seguinte espreguiçaria e faria café e cuidaria das plantas
e zelaria pelo dia até que fosse novamente hora de dormir. E se um dia foi
como a massa que ao descansar cresce, já não era.

Há muito tempo permanecia do mesmo tamanho.