em algum lugar do passado (ou beirando o Rio Douro)

Imagem

 

Um tempo sem pressa

nos comboios que levam

para algum lugar sem precisar qual

o caminho se faz ritmo

nos trilhos a segurança

de um percurso sólido

ainda que sem motivos

 

É impossível conter a estranheza

de um sentimento quase nostálgico

sem saber do que

a viagem beira o rio

um rio imenso que rega a terra

a terra áspera que marca o homem

que ali vive com sonhos tão próprios

como a paisagem que avisto

imagem colada na retina

irá com ele aonde ele for

ficará guardada por tantos anos

quantos for preciso para lá um dia voltar

 

E eu, passante por esta e outras vias

atravessando-as com minha perplexidade curiosa

deixo-me marcar pela força da região

que passa a existir um pouco em mim

somada a tantas outras – histórias de homens e de lugares

um passado puro rastro

distâncias

De longe tento contato

Penso em você

O telefone desligado

Produz uma distância inesperada

Vagueio por paisagens involuntárias

Sei que poderia seguir por qualquer lado

Não trago mapas, exercito meu senso de direção

Que é vago, displicentemente.

Talvez eu queira me perder

Sento-me num local público

Roubo trechos de conversas alheias

Em línguas que não procuro identificar.

Alguns olhares cruzam os meus

Em uns, percebo, a mesma inquietude

Outros apenas fotografam a paisagem

Para mais um álbum sem ninguém

Minhas fotos tem legendas

Que ao invés de explicar, interrogam

Ao fim do dia se alguém perguntar

Não saberei dizer onde estive ou porquê

E no dia seguinte novamente

Vagarei pelas ruas

Transitarei por pensamentos alheios

Evitando meus labirintos

Talvez fique tonta de muito respirar

Talvez encontre um barco para voar

Uma rima velha para brincar

Uma outra forma de olhar

E tentarei mais uma vez seu telefone

Como se discando esse número

Eu pudesse te tocar

caderno sem pauta

Escrevo, na quietude da serra,

Lugar onde me apercebo do mundo com mais clareza

Sei da solidão e do silêncio que terei de percorrer

Da viagem difícil e da volta

Sanar esta saudade de mim mesma

E nem sei bem onde me deixei

Escrevo, agora como se nunca o tivesse feito

Tento um diálogo, mas não há mais ninguém

Meus sentimentos estão inabordáveis

Sento-me na fronteira do dia com um rio largo

Há corredeiras em algum lugar de mim

casa de boneca

Fácil assim ter muitos filhos

Panelas de todos os tipos

Comida pronta a qualquer hora

Sol brilhando noite e dia

Um sem fim de artifícios

Fim-de-semana nas terças

Um terço rezado noite inteira

Um fio trançando o destino qual desejo

Belo perfil desenhado a bico de pena

Se a dor vier, virar a página

Mudar as peças de lugar

Rasgar as horas, se pesarem muito

Devorar livros, exercitar mundos

Todos num mesmo mínimo lugar

Felicidade plena

Alma de brincar

(homenagem a Tia Loly, que há um ano partiu para uma outra casa) 

FUTUROS

Quem olha assim de longe o horizonte

espera alguém ou pensa em quem partiu ?

terá saudades de ontem ou de um futuro qualquer?

decide ficar ou planeja partir antes de um novo dia ?

Que diálogos sem palavras trocarão seus inúmeros habitantes ?

a princesa do alto da torre, a cigana, a cigarra, a flor do deserto

a menina que um dia sonhou ganhar o mundo a qualquer custo?

qual delas vencerá neste minuto ?

Qual delas cairá para sempre após a próxima escolha ?

Peças de um dominó de brinquedo

Folhas novas de uma árvore antiga

Em que baú guardar (ou não) tantas faces e desejos ?

França, junho, 2010

Como semear leituras ?

Tirei estas fotos no interior de Portugal.

Era uma cidade qualquer num lugar aleatório,

poderia ter sido apenas uma cidade bonita numa  foto,

mas lá estava este furgão,

com uma proposta de encantar corações.

Semeando leituras. Sonho ? Realidade ?

Não parei para perguntar, para saber mais.

Estava só de passagem, voltando para Lisboa

e depois ao Brasil.

Trouxe de lá esta foto-semente,

este desejo.