inevitável

image by tumblr

ainda que se demore olhando vitrines ou tomando café

pensando que está em Paris ou Aldebaran sabe que voltará

baterá na mesma porta e na mesma tecla dessa melodia triste

refrão cansado de nada inovar

ainda que compre um passe de livre trânsito por todo o país

em seu íntimo não há espaço para mais que um pensamento

que vai e volta engarrafado em si mesmo obsessivo como só

ainda que tente castelos de areia sem fim

eles se desfarão à primeira brisa ou onda

ainda que percorra o mundo inteiro

o que te motiva é o não encontrar

 

(do livro fronteiras, sette letras)

quer ir ao cinema ?

illustration by Gobugi

me sento a mesa

um cálice de vinho pra mim

outro pra você, embora não esteja

brindo assim mesmo

como alfaces, verduras

que colho pensando em você

travo um monólogo que seria uma conversa

se não houvesse essa distância quilométrica

queria te convidar todos os fins de semana

(se isso não te causasse pânico)

para ir ao cinema comigo

para caminhar na floresta

para repartir a cama, os sonhos

queria ligar mais vezes e dizer

que tenho saudade do seu sorriso

do seu olhar que me queima

do beijo que repriso todos os dias

da música da sua voz

do doce gosto do seu amor

deriva

picture by Shutter wide shut (flickr)

Não quero ver ou ouvir, nem ir além

a bolha estourou, que mundo é este ?

tenho vertigem do mais, medo do menos

pratico delírios, saltos mortais (que adio)

viajo por lugares não cadastráveis

quem se aproxima de mim ?

por que ? com que objetivos ou faltas ?

me perco aqui e ali

desvio, troco de rumo

mudo de opinião e de casca

transmudo, quase me calo

em que momento perdi minhas asas ?

apenas caíram ou derreteram sob o calor

de um outro corpo ou paixão ?

às vezes me quase acredito

aceito ilusões fáceis a módicos custos

mergulho em águas turvas e só depois vejo onde fui

preciso de ar, de asfixia, de algo sem nome

do alto da montanha imagino o salto

o silêncio, entrega, a liberdade de ir além

não quero saber, sentir já é dor e prazer

descarto os caminhos conhecidos

me levaram a becos sem saída

descarto também os trilhos seguros

não sei viver pequenos bocados, me enfastia

não quero ser triste ou pouco

desfiando histórias que mal me cabem

queria que a lua cheia sorrisse

mas só a nova faz isso e inicia novo ciclo

entre o barco e o porto distâncias se costuram

o leme de tantas viagens, como um galho seco, partiu-se

a bússola sem norte ou sul é apenas objeto decorativo

na sala onde coleciono vazios

são frágeis os planos para evacuar os estádios

multidões  de pensamentos invadem o cenário

vozes e demônios sobem ao palco sem cerimônia

não tente entender este relato

não há nele palavras-chave, começo ou fim

estou enredada no meio, destecendo e cerzindo

não posso mais inventar destinos, traçar perfis

estilhaçar meu próprio sentido tão desprovido de si mesmo

pouco me importam as receitas

as opiniões que os sóbrios possam ter de mim

os meus desejos, os caminhos que fiz ou planejei

fizeram-se/me  pedaços, vagos, factuais, fumaça

são tolos todos os versos

e  inocentes as juras de amor

a nau dos meus sonhos perdeu-se

entre tempestades e calmaria

paixão e precipício

orvalho

image by tumblr

O vinho ficou amargo

feriu a garganta

não o beberei mais

sei que a lua está cheia

vi sua forma exuberante

quando voltei do trabalho

penso incertamente em sair

seguir até o fim da praia

pisar estrelas

chorar orvalho

 

voltar

voltar de coisas que fiz que fui

jogar pedras num lago imaginário

ver círculos e mais círculos concêntricos

queria  mergulhar entre eles

no exato ponto onde nada flutua

no perfeito profundo abraço

da água que tudo envolve

onde mora o senhor dos medos ?

preciso conversar com ele

 

a vida descompassa

está tudo um pouco turvo

um pouco em estado de espera

agora ainda mais

a vida tropeça

embaraça nas próprias pernas

talvez eu tenha confiado demais na sorte

e ainda mais em nós

queria perguntar tantas coisas

mas a quem ?

 

é melhor mastigar essa história

mil vezes, trinta mil

esperar que a tempestade passe

e algum pássaro aponte

uma saída para bem longe

urdidura

image by Alastair Stockman

não posso dizer que te espero

tão pouco que esqueci de ti

carrego todos os dias um peso

um monte de coisas por dizer ou fazer

uma pressa de quem não tem absolutamente nada depois

medo do deserto, medo do desejo

você iria comigo ao fim do mundo ?

confesso que te deixaria no caminho

alheia ao seu chamado ou não

entretida com algum atalho ou erro

sempre me perco

pelo sim ou pelo que calo

sigo alguém em mim

não sou eu, juro

não fui eu quem te disse tudo que disse

(nem o que você amou em mim)

não fui eu quem rasgou a carta sem ler

ou virou as costas sem ouvir as explicações

não havia mais espaço ou tempo para elas, concorda ?

há um tempo, que parece eterno, onde vamos levando

levando a vida, as brigas, os silêncios,

mas em algum momento, curva ou crise

a última gota faz transbordar a represa

o último oásis faz o deserto assolar o mundo

e parece que tudo aconteceu de repente

tolice, o presente começa lá atrás

e vai arrastando com ele todo o futuro

o que sonhamos, o que desejamos,

o que parecia ser tão certo.

você gostaria de voltar, tentar de novo ?

esta aí uma pergunta que nem tento responder

seria como desmanchar um casaco de crochê

para refazer ponto a ponto

talvez ficasse melhor

mas a marca do anterior estaria ali

denunciando a dor antiga e o desespero novo

a esperança e sua parceira

a noite e sua sombra escura

o sonho e seu pesado elo com a realidade

por isso ou por nada é que calo

não te digo o que penso

e se dissesse não entenderia

guardo as palavras atrás do armário

os sonhos entre as fotos de criança

e minto para mim todo o tempo

invento passeios no fim da tarde

abraços em corredores escuros

invento ondas e areia

tomo sol num dia inventado

furo ondas que são puro pensamento

velejo num barco de cores e traços

naufrago num céu azul anil

durmo e acordo numa cama estranha

e me toco na ânsia de saber de mim

se eu gostaria de reescrever esta história?

acho que sim, mas não tenho coragem, ou força, não sei

você reescreveu qualquer coisa ao falar do seu passado?

tenho medo de voltar

morro de medo de ter sido pior do que já sinto

ou de, ao chegar lá,  não conseguir sair.

sinfonia

image by Kate Powell

Eu que sou tão pouco

Sem você sou menos ainda

Nunca te falei acerca das nuvens

Que me rondam

Mil dias de neblina

Seu sorriso, ainda que tímido

É pigmento para colorir tanto cinza

E aquecer sonhos tristes

Creio que quando chegarmos a ser

Nos perderemos de vez, não sei

Mas antes que tudo passe

Ou que algo prove que é tudo tolice

Abro meu coração e declaro

Meu amor imenso

Que rompeu sólida barragem

No dia em que ouvi sua música

boca poema

image by Ruzno Pace

Espero

Penso na vida

Resgato lembranças

Ouço músicas repriso cenas

Meu espaço está vazio

Porque você não fala comigo

Pego o carro

Sigo até a última praia

Escura perdida em mim

Fim de rota de linha

Puxo fios costuro a noite

Alinhavo questões escorregadias

Fumo viajo sorrio entristeço

É duro fazer o mesmo percurso

Agora sozinha

É noite e sigo sem notícias

Não entendo

Tenho medo de imaginar coisas

Poderia pegar outra estrada

Fugir deste enredo

mas ainda estou tomada

seus olhos a me penetrar

ainda sinto suas mãos

abrindo caminhos se/me revelando

sua boca na minha

que passa o tempo em que te habita

a balbuciar poemas