Um dia como outro qualquer

Há dia para tudo, para todos. Hoje se comemorou o dia das Mães. Quem inventou talvez nunca tenha sido mãe, só o tenha feito para vender mais quinquilharias e criar dúvidas: o que comprar para alguém que tem tudo ? E colocar a pessoa na obrigação de ter de inventar algo, só para dizer que lembrou. E desesperar aquele outro que sabe que a mãe necessita de quase tudo, como ele próprio.

Quem criou tal dia talvez não seja mãe, mas tem uma, ou teve. O apelo é comercial, não há dúvida. As lojas se aproveitam disso, as famílias planejam o dia, as crianças pequenas percebem que é um dia especial, mas não o delas, pois não ganham presente. Mas aprendem, desde cedo, que há dias em que se reúnem as famílias e alguns ganham presentes. Aprendem para depois desaprender e, ainda depois, se houver tempo e chance, reaprender.

No Natal ganham todos. Os presentes variam segundo muitas coisas. Nem sempre quem tem mais compra o mais caro. Alguns, que quase nada tem, mergulham num crediário qualquer, mesmo que não o possam pagar, mas, quem sabe, a loteria … Outros, que poderiam comprar uma loja inteira, estão tão tristes ou tão envolvidos consigo mesmos, que mandam a secretária ou qualquer outro escolher, seja lá o que for, só para não passar em branco.

Obrigações. Estas e outras tantas. Podemos fechar os olhos, desligar a TV, não ler jornais, não ouvir rádios. Ainda assim acabaremos pressionados pelo dia disso, daquilo, etc. e tal. E a gente sabe que é uma data vazia – puro apelo comercial – que não deveria existir. Que as pessoas deveriam se abraçar, confraternizar, se presentear quando sentissem um sentimento sincero e profundo neste sentido.

Imagine: você acorda e lembra da sua mãe, de você com ela, numa situação já distante. Lembra dela naquela época, com seu sorriso e rosto mais leve, com a jovialidade que, sem que possamos saber quando ou porque, foi se guardando para alguns raros momentos, como dentro de um sonho ou numa brincadeira aqui ou ali em que a criança acorda dentro da pessoa e, independente de tudo, sorri. Ainda tomado pela lembrança dela assim tão feliz, você compra um presente, ou faz um poema, ou ainda, vai a sua casa e a leva, de surpresa, para lanchar ou almoçar num restaurante especial, ou então tomar sorvete e ver o por do sol . Esse é o dia da sua mãe. E seu também, pois você, e não a mídia, marcou este dia como especial.

Ou seja, um dia para todas as mães é algo inviável, não dá para acreditar que todos os filhos, naquele exato dia queiram, realmente, estar com suas mães. Mas pode ser que os faça lembrar que elas existam, ou ainda, que eles próprios existem dentro de uma instituição que, apesar de muitos considerarem falida, está aí, segurando barras antigas e atuais. Avós recebendo filhos e netos em sua casa por conta de um desemprego. Irmão abrindo a porta para o outro que, por uma separação ou um empreendimento falido, encontra-se temporariamente sem lar.

Mas as instituições estão fragilizadas, o comércio fortalecido. Então vamos comemorar os Dias dos cartões de crédito. E testar a convicção daqueles que dizem que estes dias são pura tolice. Como ? Pergunte a uma mãe para a qual os filhos sequer deram um telefonema no dia de hoje ou então para aquela que esperou por algum deles, numa grande mesa onde a decadente instituição família se reuniu. Não, não pergunte, seria covardia.

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