poemas ao vento

Poemas ao vento .

pensei te dizer que a vida parece um circo

desses pequenos, de interior, cheios de erros e improvisos

mas a imagem não iria te agradar e calei

queria ter dito também que às vezes o medo é algo palpável

veste um sobretudo grosso e anda devagar

mas estávamos com pressa ou algum assunto diário

ocupou nosso espaço e a coisa passou

agora, depois de tantos quase ditos

te observo dessa distância que se fez entre nós

teria sido diferente se tivéssemos ido ao interior

e assistido ao circo desorganizado de nós dois ?

teria sido melhor se você tivesse apertado a mão

do companheiro de sobretudo que rondava nossa casa ?

e se eu tivesse falado com você que sabia da sua dor

da culpa que nunca te deixou dormir direito ?

teríamos sido diferentes, com certeza

nem melhor nem pior, provavelmente apenas diferentes

e talvez ainda assim desnudados, estivéssemos agora

emparedados em nossas solidões

talvez ainda agora o silêncio escavasse nossos dias

concreto e sólido – inarredável e bruto

talvez, mas o talvez deixa sempre em aberto

e move estrelas diferentemente do nunca

agora não há circo nem luzes no nosso palco

mas não longe daqui

o equilibrista segue concentrado em seu número

e o sobretudo descansa sobre a cadeira

distraindo a noite

Distraindo a noite

antes que eu me pegue pensando em você

ou acabe a noite jogando paciência impaciente no computador

ponho um belo par de brincos e saio

talvez você me veja do seu firmamento

se lembre de mim nos melhores momentos

não sei, sei que saio de casa pra distrair a noite

caminhar um pouco, encontrar amigos

falar coisas tolas, leves, quem sabe arriscar de novo

pego uma barca e atravesso meu próprio silêncio

queria não ter de ouvir de mim mesma

que acabei perdendo a chance

a hora não é mais essa

agora estão todos com pressa

nem um poema, ainda que breve

cabe nessa confusão

olho sem ver a cidade adormecer

as luzes inventam finos traços no meu horizonte

os sons chegam misturando palavras e ruídos

afio os ouvidos e tento captar

uma história possível de ser escrita

uma confissão capaz de mudar a história

uma declaração de amor

mas só ouço funk e um pigarro ou outro

aqui e lá, luzes difusas

nessa noite inacabada

 

barco-foguete

não é mais hora de abrir caixa de mensagens
mas a noite chegou solitária, o sono ainda não
e então remexo meus e-mails
como se dentre eles pudesse haver algo
um chamado, uma palavra mágica, sei lá
o mapa da mina

fico ensimesmando que mina seria
de ouro ou de felicidade ?
de amor ou sucesso ?
por que a vida é assim tão dual ?
como ser só isso ou aquilo ?

me vejo numa encruzilhada
todos os caminhos são caminhos
e me atraem na mesma intensidade
não dá pra sermos múltiplos e simples
ao mesmo tempo ?
receio que não, receio que sim

ou somos básicos demais ou sem fim
retrógrados, devagar quase parando
ou nosso barco virou foguete e sumiu
difícil encontrar pares ímpares
mais difícil ainda apaziguar demônios

Às vezes me canso, me rendo
e pratico ser simples e banal
mas confesso, é muito complicado.

 

nem sempre seremos felizes

alegres talvez, a maior parte do tempo

por coisas pequenas, diárias, fugazes

exercitando a alegria como um hábito

um banho morno, flexões ao acordar

uma boa risada, encontrar velhos amigos

fazer as pazes, brincar com crianças

ver Tom e Jerry, dançar um merengue

no meio da sala, ainda que só

 

raramente seremos o máximo

mas a média tem suas vantagens

como o anonimato sem compromissos

as besteiras que não são notadas

o beijo roubado que não sai na mídia

 

nem sempre seremos tristes

é só questão de tempo

esse sim dono de todos (os) nós. 

Diet

A faca fácil

O garfo magro

O prato fundo

No raso dos olhos

Fome ou medo ?

 

A boca murcha

No mastigar das horas

O prato feito

A água no copo

O oceano em pó

 

 

A faca e o corte

O travo da acelga

O óbvio do orégano

A carne crua

A vida passando lá fora

 

O garfo de peixe

O peixe póstumo

As guelras e a guerra

O olho opaco

O brilho dos talheres

 

A festa em que te procuro

E não encontro

Ou finjo

Não te encontrar

 

A fresta por onde olho

E não vejo

Além do fundo

Do prato raso

Sem riscos

Sem mais

Speeding Limit (cacá)

Como a Vânia é ocupada demais para fazer o primeiro post, eu, Cacá vou postar aqui algo de minha autoria para a inauguração.

Speeding Limit

I had a hole future up ahead, but I lost the last exit, now I’m just driving. Driving, heading to nowhere, no place to go, no place to come back to. I lost my home, I lost my dreams. Now, it’s me and the unknown road. It’s raining. But I don’t care anymore, it’s me and nothing. I can’t feel a thing beside this emptiness. Me and the dark … unknown road.

I turn off the lights.

I close my eyes.

Waiting for the next curve, that I won’t see.

It’s dark and silent.

Please come now my last curve.

Cacá Osório

estrada-chuvosa1

Para aqueles que não entendem inglês, aqui vai a tradução.

Eu tinha todo um futuro à minha frente, mas perdi a última saída, agora apenas dirijo. Dirigindo, indo para o nada, nenhum lugar para ir, nenhum lugar para voltar. Perdi minha casa, perdi meus sonhos. Agora, sou eu e a estrada desconhecida. Está chovendo. Mas eu não me importo mais, sou eu e nada. Eu não sinto nada além deste vazio. Eu e a desconhecida e escura estrada.

Desligo os faróis.

Fecho os olhos.

Esperando pela próxima curva, que não verei.

Está escuro e silencioso.

Por favor, venha agora, minha última curva.

Cacá Osório

estrada-chuvosa