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sombra

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há sons que transpassam os dias, chuva no telhado, sussurros, talvez lamentos vindos da madeira dos velhos armários. um galo distante na madrugada, goteiras na pia, rezadeiras em prece. ressonâncias, procissões, ressonares.

divido minha perplexidade em várias, o tempo passa e sigo me surpreendendo. sei que não deveria. mas suspeito que esse é um estado permanente. assim desde menina. ou mesmo antes de mim.

conecto-me, ou tento. religar, relicários. ingresso numa religião pré-pós-fim-do-mundo  e quase duvido dessa realidade que nos prende a matéria. penso nas marionetes, numa rebelião de todas elas.

uma coisa te digo, não é fácil ser profundo, nem profano. num mundo assim tão quase, tão clichê. essa palavra sempre me lembra chicletes. mas não quero me dispersar. difícil caminhar sobre pedras quando nem elas são concretas e assumem suas existências temperamentais. confesso. também sofro de turbulências e intempéries. por isso é sempre conveniente manter os cintos de segurança apertados.

costuro um sentido. na gaveta de bordados minha avó cochila entre um crochê e outro. ao lado dela um enorme carretel de linha crua, um outro de fino cordão dourado. as histórias se costuram sem pontos ou moldes premeditados, talvez sem futuro.

há gavetas para tudo, na maioria etiquetas explicam o óbvio, mas em algumas não posso entrar, acho que perdi a chave de uma meia dúzia. minha avó não pode sair da sua para me ajudar. não entendo uma palavra do que dizem os outros seres que por aqui passam.

tento prestar atenção na previsão do tempo para depois de amanhã. chove torrencialmente agora em algum lugar. nem todo avião cai mas todo voo é risco.   

desencontro literário

Era para ser um acontecimento, um reencontro depois de alguns meses, marcado com alguma antecedência. Cada um falaria um pouco, alguma viagem, fato engraçado, tudo acompanhado de variados pães e iguarias trazidas por todos e um bom vinho que encontros assim merecem um brinde.

Mas foram caindo mensagens, um não viria por conta da gripe, outro por trabalho, outro ainda em viagem e lá se iam os gatos pingados de nossa festa.  Me senti um pouco roubada, confesso, afinal tinha vindo de longe e estava cansada. Comemos pães quase sem recheio, já que estes viriam com quem não veio. Uma só garrafa de vinho, que foi suficiente para o quorum tão diminuto.

Estabelecemos logo de início um acordo: não falaríamos de política. Uma decisão sábia, pois havia no pequeno grupo prós e contras ao impeachment e suas inumeráveis nuances. Isso me deu algum alento, afinal não tínhamos nos degolado uns aos outros por termos opiniões diferentes, como tem ocorrido ultimamente nas melhores famílias. Conversamos um pouco de tudo e nada, como sempre chegamos ao nosso tema recorrente: algum novo escrito? Projetos de novos livros?

Com certeza não estávamos nos nossos melhores dias, enveredamos para as dificuldades de sempre, a falta de leitores, a constatação de que no mundo globalizado todo mundo escreve mesmo que nada leia. Qualquer um a qualquer hora em qualquer lugar. O português assassinado aqui e ali, os muitos defensores de que o que importa é dar o recado, os muitos “recados” dados nas redes, nos bares, ininteligíveis às vezes, muitos cifrados, endereçados apenas aos iniciados.

E como se não bastasse o quase enterro da nossa língua e a sensação de que escrever é como atirar pedras num cão fictício, levantamos outra questão ingrata: se vale a pena publicar e o que vem a ser o famigerado sucesso. Sucesso é número de leitores? Crítica no jornal? Ser Global? Vale a pena consultar um guru? Contratar uma agência de publicidade?Qual a receita?

Só de pensar em participar de todos os eventos, nem tanto por interesse mas pela visibilidade, escrever para mil blogs, mandar textos para umas tantas revistas vai me dando uma preguiça. Outro de nós logo assume sua incapacidade para fazer umas tantas coisas, embora em outras consiga se sair bem. E a conversa vai se arrastando enquanto comemos pães, agora já com novos acompanhamentos trazidos por quem chegou mais tarde. Ainda assim somos poucos e estamos, de fato, um tanto abatidos.

Me despedi pouco depois, mais cedo do que costume. Na mesa, entre os pães, esticada e fria, a esperança. Não me voltei, abracei os amigos e desci no elevador metálico e frio.

Pode ser que esta seja uma leitura oblíqua, tendenciosa de minha parte. Vai ver que minha indisposição, que poucas horas depois constatei ser início de uma gripe, trocou as lentes do meu óculos sem aviso e vi tudo nublar.

Mas como nada é para sempre e sempre pode durar um instante, já no carro tocou uma música legal, bom ritmo, uma letra interessante e a noite não me pareceu tão avessa.

O amigo escritor, por sua vez, foi caminhando pra casa. É longe, mas nem tanto. E numa esquina encontrou o Tigre, amigo velho, e não teve jeito senão entrar num bar  e tomar alguns chopps de prosa. Tigrão, disse depois rindo, só você mesmo pra varrer de mim um certo não sei o que.

Outra amiga pegou logo um taxi que apressada iria prestigiar o filho, ou seria o primo?, em algum evento. Do nosso desencontro casual, sequer lembrou mais.

A anfitriã, bem, para esta a coisa devia ser mais complicada. Fechando a porta pensou nos pratos, talheres e taças por lavar. E ainda teria de tirá-los da mesa e encarar a pobre esperança totalmente desesperançada. Foi fazendo tudo devagar, metodicamente tirou os pratos, levou pra cozinha e então lembrou algo precioso que ajudou a relaxar. Levando as taças para a cozinha, bateu uma na outra, um brinde, disse, a faxineira que vem amanhã e me livra desse fardo. E teve um insight. Poderia tentar explicar que o som das duas taças se chocando lembrou um sino que ouvira outro dia ao passar na Rua da Alfândega… Mas de fato apenas correu pra finalizar um desenho que começara no dia anterior.

Na manhã seguinte, bem cedo, ouvi uma notícia fantástica: tinham enfim dado baixa na infame carreira de uma das maiores aves de rapina de nossa política atual – o Cunha.

Não é que até minha gripe deu uma melhorada?

Me arrumei e saí para o trabalho. Como de costume conferi de cabeça o que poderia ter esquecido. Dessa vez nada, pensei. E abri o portão a tempo de ver passar a Esperança. Lá ia ela toda animada outra vez.

coisas banais? talvez

enforcado.

 diante dos últimos acontecimentos  tenho poucas opções, ou muitas. o  momento é importante, já  nascendo histórico, talvez não  convenha perder o mote ou  amotinar-se ou ainda cair em si,  envergar-se, avaliar percursos,  varrer pra não sei onde as asas dos  grandes voos.

 me detenho diante da tela desses  dias e cogito ir ao cinema ver um  bom filme sobre qualquer coisa que não seja corrupção ou guerras, caminhar na areia sem arrastão ou policiais de bermuda, não ir as passeatas agendadas contra ou a favor, onde multidões se amontoam, apoiando isso ou aquilo enquanto as cartas dos baralhos se misturam e não sabemos mais quem é o rei de espadas, a rainha de copas, o louco ou o enforcado.  posso também tomar sorvete, estocar pipoca, ruminar sobre as razões que levam pessoas a querer mais e mais e mais, sem saber nem mesmo o quê.

independente e mesmo indiferente a tudo isso minhas unhas continuam a crescer, apesar de eu roê-las quase involuntariamente. não tenho barba, quem a possui deve ter uma preocupação a mais, em compensação problemas a menos no enfrentamento do dia-a-dia já que seu lugar ao sol  é mais seguro ou definido há muito mais tempo. talvez. entre o universo masculino e o feminino há um território de angústias. muitas semelhanças, distâncias, incompletudes, talvez. talvez. acho muito pertinente entremear esta palavra em todos os pronunciamentos,  avaliações, sentimentos, pressentimentos, opiniões. não é ficar em cima do muro, mas perceber que também ele é movediço.

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talvez é um exercício da fantasia. sendo uma andorinha ao menos uma vez experimentaria voar só, talvez fizesse outono assim. saltando de paraquedas esperaria o último instante para abri-lo provando o sabor do risco e da possibilidade. se fosse um marinheiro desejaria morrer numa tempestade ou mergulhando fundo em mim. talvez. ou não.

pois pode muito bem um vento bom acariciar o rosto e brotar uma vontade de sorrir e abraçar pessoas. uma canção nova colorir um sonho antigo e dar coragem pra seguir viagem.

tocar o azulilás do entardecer, virar a página daquele velho romance, olhar o mundo de dentro de uma bolha de sabão pode não mais bastar. talvez.

a primavera na varanda dos dias, a vida que escoa na ampulheta de cada um de nós.

último espetáculo

De um jeito ou outro iriamos nos revelar quando a cortina se abrisse desvendando a verdade e o engano. Poderia levar alguns anos mais, é verdade, sempre há formas de adiar. Fins são sempre doídos.
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Mas foi num dia qualquer, você agindo como sempre, não poderia supor, nem eu, já que fui a feira e comprei pimentões amarelos e vermelhos, tão mais caros que os verdes, só pra dar cor à nossa intimidade já um pouco pálida. É claro que me apercebi disso no depois de tudo.
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Ainda hoje não sei dizer se foram as cores vivas dos pimentões, o amarelo forte do açafrão no arroz, as cortinas da sala fechadas como numa peça que já terminou, o fato é que naquele jantar, apesar do vinho de guarda e das velas, tudo me pareceu prato feito que se come por pura obrigação.
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Em algum momento a chama da vela denunciou aquele lado ou sombra que você sempre esconde, o sorriso um tanto torto, o olhar que me deu medo. Quem seria você? E por que insistíamos nisso? Quem seria eu sem você?
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Caí em mim e soube também do seu tédio. Encenávamos há tanto aquela peça, as falas de sempre e de cor. Nem foi preciso muito esforço para desmontar o cenário e nos tirar de cartaz.

cansaço

Foto Taylor James
(foto Taylor James)
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eu queria fazer coisas com sentido, não, coisas que quebrassem o sentido
ditado pelo que já é posto, pelas forças cotidianas que nos fazem fingir
como se isso fosse o melhor de nós, queria matar um a um os meus medos
deletar passados, mostrar meus seios, abrir o peito e dizer sim ou dizer não
se fosse pra frear um trem descarrilhado, parar o tempo um dia antes
de um acidente rodoviário ou vascular, desfazer armadilhas, desatar

queria meu pensamento não tão disperso, intermitente, incontrolável
não me dividisse em dez, em mil, cada uma um olhar, um paradeiro
é difícil viver num planeta de espelhos por todos os lados
que não me repetem a mesma, não, ao contrário, me denunciam múltipla
diversa e ainda assim confinada a essa pele corpo roupagem

preferia não ter ido ao céu pois ele me deu a dimensão do inferno
se tivesse morado na Bolívia, não teria flertado tanto com o inimigo
batido tantas vezes na porta errada, assaltado noites frias
mas o tempo é isso, nada e tudo, um tambor de revolver
eventualmente vazio, potencialmente um tiro, um lugar escuro

está bem, não foi um bom dia, não queria, juro, incomodar ninguém
com essa minha poesia vômito, feita de sertões e dilúvios
verso que se desdobra, confessa e logo em seguida desdiz
passado, futuro, pretérito, conjugações numa língua difícil
onde cada verbo é um mundo ou mero sentido dúbio para uma noite mal dormida

uma gata, uma broa

in-dissoluvel (tumblr)
(in-dissoluvel – tumblr)

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ao acordar naquela manhã espreguiçou para todos os lados
abriu os dedos dos pés, das mãos, ao máximo, sentiu a umidade do ar,
pressentiu o vento que ainda era só sugestão, chamou por Elena
que se manteve distante, soberana de seu lugar na janela,
sabedora de coisas que ninguém mais vê.

mexeu os dedos dos pés, não todos, alguns, mesmo com grande esforço,
parecem avessos a qualquer comando, como acontece, às vezes, com o coração,
mas não pensou nisso, na verdade tem praticado um misto de alegria e vazio,
mansidão e poesia, inspira-se eventualmente em Elena, no que acha que se
passa na sua cabeça felina, atenta e distante ao mesmo tempo. espelha-se
nela e jura não querer mais se enredar em paixões, enveredar por contas que
nunca fecham.

ao acordar percebeu que não era tão cedo, o frescor da madrugada já tinha
partido, havia uma ligeira brisa, um ar pesado e úmido, prenunciando vento,
talvez chuva. espreguiçou e moveu todo o corpo, exceto alguns dedos que
parecem ter uma existência própria e inerte, afastada de tudo o mais e
talvez sem significado, levantou e fez um café forte com gengibre. Elena
seguia empoleirada na janela, lambia as patas e voltava ao seu nada habitual.
um jeito nada de ser, pensou, invejando-a um pouquinho.

gostava de acreditar que Elena filosofava sobre coisas como ser ou não ser
gata doméstica, algumas vezes desaparecia por dias, sabia da possibilidade
de um dia ela optar por seguir outros destinos, pular num quintal, avaliar
que a vida em janelas é muito restrita, que prefere saltar por aí.

sentiria falta, claro, do mistério de ser de Elena, mas ainda assim
espreguiçaria pela manhã, faria café, manteria sua pequena horta livre de
mato, aguardaria com o coração leve os primeiros dias da primavera, a hora
de colher o brócolis, o alho poró, o tempo das jabuticabas.

ao acordar naquela manhã não percebeu nada diferente, a não ser o ligeiro
vento insinuando uma possível chuva, apenas levantou como sempre e seguiu
a agenda inscrita na pele dos dias.

estava lá, em algum lugar, o desejo de fazer pão. juntou os ingredientes,
limpou a bancada, abriu a janela onde Elena já não estava, abriu a porta por
onde Pingo entrou abanando o rabo de felicidade. Tão diversos: Elena e Pingo.

juntou a farinha, a água, o fermento, misturou aos poucos, brincando com as
formas que iam surgindo, virando, batendo, procurando a textura, o ponto,
o corpo ajudando o movimento das mãos. em seguida deixou a massa no canto,
coberta com um ligeiro pano. ela iria descansar e crescer.

ter como destino ser uma broa, um pão. Pingo se sabia cachorro ?. Elena sabia
sua natureza arredia, mesmo que fosse só por instinto. e ela, o que sabia
de si ? que no dia seguinte espreguiçaria e faria café e cuidaria das plantas
e zelaria pelo dia até que fosse novamente hora de dormir. E se um dia foi
como a massa que ao descansar cresce, já não era.

Há muito tempo permanecia do mesmo tamanho.