cultivar

Tenho questões pendentes

que me esforço por resolver

embora duvide do valor do que se faz

da dor que nada traduz

da espera nos pontos de ônibus

 

Tenho reunido impressões

em fotos em abraços em branco

guardado amores em rascunhos

apostado em noites sem lua

em corpos sem rosto

em rostos sem amargura

 

Tenho feito de tudo um pouco

e pouco me ajudam os mapas

as viagens de qualquer espécie

e os dicionários de antônimos

 

Mas me esforço para sorrir

bilhar junto aos primeiros raios de sol

e embarcar em sonhos e planos

às vezes em alto mar

outras em voos rasantes 

 

Viajo em rios caudalosos

em braços feitos cipó

um dia maremoto outro túnel do tempo

outro ainda lições de silêncio

ou um amor que dura infinito momento

sem tempo sem muros

semente

179

tomo um ônibus

transito pela cidade lenta

corpos suados pressa

paisagem sem foco

buzinas pensamentos

um rádio uma parada brusca

trechos de conversas roubadas

se misturam numa história insensata

relógio sem ponteiros

horas que dão em anos em nada

salto no ponto errado

talvez certo se tudo fosse diferente

caminho contando os passos

o cansaço é palpável

eu o carrego nas costas

e debaixo do braço

sento na praça

deveria seguir mas não posso

minhas pernas de cimento

travam duelos com as asas

e esse coração vertigem

do outro lado do mundo

Ed Fairburn

Ed Fairburn

nestes dias

onde raízes se põe a mostra

contorcidas como não as vemos

enquanto se guardam nas profundezas,

não aguardo o inverno

mas o intenso calor dos trópicos

sempre cheio de alegorias

alegrias fáceis e, talvez,

entre multidões escondida

a envergonhada e óbvia solidão

que a custa de um enorme esforço

tentamos esquecer em alguma esquina

.

dilemas – a escolha que não fazemos

aí, escancarada num verão febril

não basta fingirmos ser feitos de barro

somos barro e vamos esfarelar

de qualquer modo em alguma estação

sem legenda, pósfacio ou absolvição

talvez uma chuva de lágrimas

ajude a moldar na argila ou areia

a arte que guardamos sem saber

e do embate: dor ingenuidade e fraude

acabemos por entender

alguma coisa desse infinito que somos

partimos

uma hora antes da hora
pés arrastando a vida
e alguma história
.
chão feito de rochas
mapa em branco
e nenhuma vara de condão
.
na bagagem
pouco mais que nada
além das asas partidas

algo de bom

feche os olhos

nesta varanda

as flores não vão

te deixar morrer

.

ouça o barulho do mar

entoe uma cantiga

conclua aquele pensamento

fugidio

.

confie

rasgue a carta de adeus

a bula do remédio chamado certo

.

relaxe

algo de bom

vai acontecer

.

repare no broto de girassol

em instantes

a casca da semente

vai se romper

.

os seres invisíveis

estão aqui

feche os olhos

para vê-los 

.

as flores sorriem

porque você veio

por você

simples

para interromper um silêncio

podemos  ler algum conto famoso

contar uma piada um causo

 

para corromper o silêncio

podemos mentir ou tirar do baú

segredos que juramos nunca revelar

 

mas se o silêncio for solo fértil  

basta sorrir e nada dizer

pois o que é pleno

simplesmente é  

quase

DSC09420

fim de tarde
quando as possibilidades do dia
já se guardam
para um outro amanhecer
quem sabe?
.
entre as cores do céu
há uma que me esquece de mim
outra que me leva
onde sonhos se perdem
descalços numa areia distante
.
até os pássaros suspendem o canto
nos aquietamos aturdidos alertas
numa atenção perdida
aguardando o desfecho
da luta diária noite-dia
.
sabemos quem vence agora
e quem voltará vitorioso
no próximo round
queria eu também ter
certezas assim
.
fim de tarde
todos os seres suspiram nessa hora
é quase possível perceber (talvez acreditar)
no pulsar das veias nas confissões de amor
no fluir dos rios que nem sempre correm para o mar

quase
a noite ainda na sala de espera