tela

a brisa esbarra na tela contra mosquitos e se afasta

adentro a noite quente e sem insetos

medito para ganhar tempo

recordo o céu colado no teto

 

invejo a brisa que pode te tocar

ou será que seu corpo tem tela

fecha a janela e liga o ar condicionado?

 

as paredes suam o velho assoalho reclama

respiro fundo como aprendi num certo treinamento

pra evitar cansaço calor medo

 

o medo é uma substância à deriva

vem e vai sem aviso ou motivo

em breve o amanhecer avisará que é hora

e tudo será mais distante daquele ponto

 

para isso me apronto

pinto de azul o fundo dos meus olhos

e tento explicar o infinito

do outro lado do mundo

Ed Fairburn

Ed Fairburn

nestes dias

onde raízes se põe a mostra

contorcidas como não as vemos

enquanto se guardam nas profundezas,

não aguardo o inverno

mas o intenso calor dos trópicos

sempre cheio de alegorias

alegrias fáceis e, talvez,

entre multidões escondida

a envergonhada e óbvia solidão

que a custa de um enorme esforço

tentamos esquecer em alguma esquina

.

dilemas – a escolha que não fazemos

aí, escancarada num verão febril

não basta fingirmos ser feitos de barro

somos barro e vamos esfarelar

de qualquer modo em alguma estação

sem legenda, pósfacio ou absolvição

talvez uma chuva de lágrimas

ajude a moldar na argila ou areia

a arte que guardamos sem saber

e do embate: dor ingenuidade e fraude

acabemos por entender

alguma coisa desse infinito que somos