quase

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fim de tarde
quando as possibilidades do dia
já se guardam
para um outro amanhecer
quem sabe?
.
entre as cores do céu
há uma que me esquece de mim
outra que me leva
onde sonhos se perdem
descalços numa areia distante
.
até os pássaros suspendem o canto
nos aquietamos aturdidos alertas
numa atenção perdida
aguardando o desfecho
da luta diária noite-dia
.
sabemos quem vence agora
e quem voltará vitorioso
no próximo round
queria eu também ter
certezas assim
.
fim de tarde
todos os seres suspiram nessa hora
é quase possível perceber (talvez acreditar)
no pulsar das veias nas confissões de amor
no fluir dos rios que nem sempre correm para o mar

quase
a noite ainda na sala de espera

pra mim

Ryan Hewett

Ryan Hewett

se fosse pra mim

o recado o sonho o chamado

partiria agora

em uma nave especial

lotada de poemas e doidices

não esperava sequer o avião

(ultimamente a neblina tem atrasado

ou mesmo cancelado voos)

 

voltava a velha casa

tirava as asas do porão

pedia aos pássaros dicas sobre o caminho

saltava da Pedra da Gávea

e ia beirando as praias

até bater na sua janela

e com a ajuda dos amigos alados

fazia ninho no seu coração

céu imaginário

céu imaginário 2

 

 

jogaria tinta naquele céu de inverno onde as estrelas quase me cegavam de tanto brilho ainda que tudo que eu quisesse fosse deitar-me sob seu manto e dormir

.

protegida da vida, das coisas pequenas e das grandes, das possibilidades do amanhã e de tantas incertezas

.

se pudesse, como na tela do paint ou do fotoshop, pegaria o pequeno regador e jogaria no manto do céu todas as cores do cardápio

.

testaria o céu lilás o rubro o sépia

e pensaria em nós em cada cenário

cada cor um de nossos sets

cada nuance um capítulo diferente de nossa recente estória

.

e antes de dormir fecharia a tela sem gravar nenhuma alteração

porque o céu que guardo em mim

e que me protege com seu manto de estrelas

é aquele que sempre me viu por aqui

deriva

picture by Shutter wide shut (flickr)

Não quero ver ou ouvir, nem ir além

a bolha estourou, que mundo é este ?

tenho vertigem do mais, medo do menos

pratico delírios, saltos mortais (que adio)

viajo por lugares não cadastráveis

quem se aproxima de mim ?

por que ? com que objetivos ou faltas ?

me perco aqui e ali

desvio, troco de rumo

mudo de opinião e de casca

transmudo, quase me calo

em que momento perdi minhas asas ?

apenas caíram ou derreteram sob o calor

de um outro corpo ou paixão ?

às vezes me quase acredito

aceito ilusões fáceis a módicos custos

mergulho em águas turvas e só depois vejo onde fui

preciso de ar, de asfixia, de algo sem nome

do alto da montanha imagino o salto

o silêncio, entrega, a liberdade de ir além

não quero saber, sentir já é dor e prazer

descarto os caminhos conhecidos

me levaram a becos sem saída

descarto também os trilhos seguros

não sei viver pequenos bocados, me enfastia

não quero ser triste ou pouco

desfiando histórias que mal me cabem

queria que a lua cheia sorrisse

mas só a nova faz isso e inicia novo ciclo

entre o barco e o porto distâncias se costuram

o leme de tantas viagens, como um galho seco, partiu-se

a bússola sem norte ou sul é apenas objeto decorativo

na sala onde coleciono vazios

são frágeis os planos para evacuar os estádios

multidões  de pensamentos invadem o cenário

vozes e demônios sobem ao palco sem cerimônia

não tente entender este relato

não há nele palavras-chave, começo ou fim

estou enredada no meio, destecendo e cerzindo

não posso mais inventar destinos, traçar perfis

estilhaçar meu próprio sentido tão desprovido de si mesmo

pouco me importam as receitas

as opiniões que os sóbrios possam ter de mim

os meus desejos, os caminhos que fiz ou planejei

fizeram-se/me  pedaços, vagos, factuais, fumaça

são tolos todos os versos

e  inocentes as juras de amor

a nau dos meus sonhos perdeu-se

entre tempestades e calmaria

paixão e precipício

artifícios

Um dia você vai perceber

que tudo o que somos é mero artifício

Imagem de miragem por trás de tanta sede

Sombra escura no fundo do espelho

Onde se olha e não se apaixona mais

Onde busca e não encontra conforto algum

Um dia desses o álcool não fará efeito

Nem toda droga dará alívio

Para a hora que não passa

E ao longe o farol aponta o vazio

O sol que se desmancha pó

E o instante perdido de um sonho

Sempre distante e no mesmo lugar.