amarelo

by in-dissoluvel (tumblr)

dias atrás encontrei uma pasta

com postais, fotos, cartas

estas, especialmente, bem antigas

não sei porque as perdoei

das cinzas a que submeti tantas outras

.

releio, tento lembrar

não sei porque exatamente as escolhi

algumas, que gostaria de ainda ter

incendiei sem mesmo saber

.

agora é mais simples ou ao menos mais rápido

deletar ou perder num computador antigo

num pen drive esquecido numa bolsa qualquer

.

tempos modernos

assépticos,  luz fria

nada de papéis para amarelar

em alguma gaveta do tempo

verso estrela

by in-dissoluvel (tumblr)

O verso que silencio

faz parte de um pacto

me acompanha e ilumina

não levanta poeira

e atém meus pés ao chão

.

somos par, indissolúvel parelha

se ele me falta

trafego em velocidade

tropeço em rimas pobres

esbarro em amores confusos

feitos de esquinas, esquivas

.

bem sei que ele sem minha alma

é só palavras esboços cores

espalhadas por aí

o verso e meu reverso

meu marco – inserção no mundo

se não fossem eles (os poemas)

quem eu seria

entre tantos barcos em mares de papel  ?

.

navego

poemo

escrevo nas estrelas

nas montanhas e no vento

e atravesso noites

baús e medos

dobrando as bordas do meu querer

bordando as horas

roubando a poesia

das vidas que sem perceber

a beleza  que tudo permeia

se deixam ir

desatentas

possível

Eu penso em você

Pulando poças d’água

Escorregando na lama

Há cerca de mil anos

Acho que nos amamos

E era só um olhar pro outro

Pra tudo saber

 

Desenhar azuis era um hobbie

Fazer amor –  uma forma a mais

De abrir portas e viajar no espaço

 

Lembro das palavras absurdas

Do abraço encantado

Dos seus passos no escuro

Do sono tranquilo

Se permanecias comigo

A noite inteira

 

Do que falávamos ?

Nem sei, nossa relação tinha cheiro

Tinha melodia e letra

Quantas vezes fomos ao céu

Um do outro e mais além ?

 

Agora acordo nessa cama

Larga e vazia

Não é bom, nem fácil

Mas sei que amar é um mistério

possível

dúvidas

by Christos Magganas

um rol delas:

acerca da vida

de mim neste aquário

de você longe e perto

do valor das coisas

das lembranças inventadas

dos necessários esquecimentos

.

outras tantas incertezas:

sobre o assoalho do tempo

o jogo de espelhos

as palavras dúbias

a gangorra das emoções

.

a infância – a que sinto

a que lembro e a que me contaram –

e de todas e de tudo

a saudade que sempre arranha

.

certezas:

que sementes dão frutos

se caem em solo fértil

dos encontros extremos

que mudam para sempre nosso caminho

e da existência de lugares mágicos

onde podemos descansar por uns dias

se os mares/portas/motivos

abruptamente se fecharem

liquidificador

by Sven Fennema (Asylum Art)

esse caracol se enreda

brincando de trocadilhos

troca trilhos pinta o teto de anil

às vezes se enrosca em meu pescoço

se esconde entre versos

invade minha noite e pensamentos

destampa sorrisos

segreda promessas

.

Vive em aparente calma

mas em situações de perigo se encasula

ou se camufla

algumas vezes de gente

com olhos boca e dentes

já me convenceu certa época

de sua natureza humana

.

Mas caracol, por princípio e filosofia (eu acho)

sai pouco de casa

e muito desconfia

ao primeiro sinal de perigo

que pode ser um pingo de chuva

ou uma palavra com conotações mercantilistas

ou ainda uma centopeia (a palavra ou ela mesma)

se encaracola

encaramuja

come doces e cospe celulares

.

Misturando tudo

o que houve

o que ouviu ou não

uma planta comestível

um olhar

alguma verdade

uma frase pêndulo

um olhar fundo

uma casa

uma ou outra tolice

um sonho destecido

.

Tudo isso e tudo o mais

num hiper mega

liquidifica   dor

liquidifica  mor

belo improvável

by in-dissoluvel (tumblr)

tenho andado por aí interrogando

sem esperar respostas

marcando o caminho

para não me perder na volta

tenho feito círculos e rotas

participado de cânticos e nuvens

flertando com o belo o improvável

.

há dentro de mim alguém

desinventado

há também quem empurra

a roda do tempo

sempre em frente, sem pestanejar

.

faço micro cirurgias

no meu espaço doméstico

mudo os móveis de lugar

o teto se desprendeu

deixou-me a céu aberto

.

agora me assoma a paixão

ou será me assombra a palavra correta ?

assola, consola,  consome

tento me manter lúcida

agarrada a única balsa em todo o firmamento

.

farol num dia longínquo

horizonte tardio, o vento a me levar

ora ao porto, ora ao alto mar

levemente a deriva

muito perto do coração

óbvios

by Andrea Galluzzo (Asylum Art)

somos perigosos e dóceis

matamos por amor

e deixamos morrer por descuido

todos espertos experts idiotas

feridos por uma orfandade

que usamos como escudo

às vezes como espada

.

somos absolutamente óbvios

embora nos enganemos a toda hora

talvez um dia a gente encare

a outra face antes da morte

e diante dela qualquer explicação

será supérflua

noites brandas

by desenhando-o-mundo (tumblr)

Na varanda

a rede abraça o corpo estendido

ao mínimo movimento do vento

ela distraída responde

ligeiro balanço

.

A brisa é fresca

acaricia o rosto, ameniza a dor

os sonhos devaneiam pelo jardim

há duendes brincando junto ao riacho

e flores aguardando a primavera

.

No fim da tarde as nuvens se adensam

crianças que há muito cresceram

entoam cantigas nessa hora

enquanto o céu escurece

os corações envelhecem

.

Estrelas sempre arrancam de nós

suspiros e atordoamento

desnudam nossa pequenez

apontam tantos mistérios

nos defrontam com o tempo

.

Este que leva e traz

e sem aviso toca a campainha

lá no longe da porteira

que nada separa

e tudo indefine

revisitas

by in-dissoluvel (tumblr)

Acordarei amanhã

que hoje já é tarde

há estrelas lá fora ?

uma ou duas luas  ?

dinossauros, bem sei

já não há

.

Saio sem medir cansaço

a areia de repente sob meus pés

não sei se fui a praia

ou ela, já velha amiga

veio bater a minha porta

.

Sinto o vento bater em meu rosto

efeito do vinho que não bebi

ou das palavras que engoli em seco?