maresia

Mar ou ar

Flor ou cor ?

O que importa se ao te ver

Caem por terra todas as minhas convicções ?

Tudo que defendo ou nego fica pequeno

E eu me vejo

Paralela ao mundo

A traçar diagonais e círculos

A falar pelos olhos

A olhar em silêncio

Evitando chegar tão perto

De onde não seria mais permitido

A mim ou a você

Partir ou chegar

maresia

Sorrisos esvoaçando na noite

mãos se inscrevendo no rosto

esboçando poemas perseguindo contornos

o calor dos corpos

A palavra que tudo mudaria

(agora dita) a chave da casa

a carta de amor

a caixa

 

Nosso amor sem retratos

alguns ecos do passado

um chalé em uma exata praia

inexata

Estradas sem fim

o abandono de quem confia

(ainda que arrisque)

a entrega plena

o ir e vir

como sabem fazer as marés

fabulando

“Jetta” by Seamus Conley

Somos feitos de inúmeras teias
terras, afetos e abandonos
a infância é fábrica de sonhos
lendas e fabulações
a adolescência é descoberta
insensatez, queda livre e busca
de códigos que esclareçam o mundo
mapas para inserir-se nele

O tempo – esse espanto –
vai nos mostrando
a metamorfose que somos
o terreno sempre movediço
a cronologia dos sonhos
as ruínas dos planos

E o sentido de tudo ?

Tudo é sempre viagem

gota num oceano

Quando a vela baixou

Só restou o casco

Em sua nudez frágil

 

Diante do mar imenso

Não havia nada

Que pudesse fazer crer

Que nele houvesse vida

 

 

A morte, com certeza,

Habita a vida e a vigia

Mas aquele barco mais parecia

Um menino perdido

À  deriva de si mesmo

Como um verso

Na vastidão de um romance

abismando

Levo no bolso a identidade prescindível

sei de cor nome, endereço, códigos de convivência

investigo a vida das formigas e invejo os pássaros

que enchem minhas tardes sob as árvores

.

Queria esquecer tantas culpas, reinventar palavras

as que conheço não me exprimem

ponho todas no liquidificador e ainda assim não tem suco

soam rasas, não fazem sulcos na terra ou no peito

.

Quero palavras de criar abismos e alternativas

de avizinharem o outro e talvez possuí-lo

de revelarem-se numa obra mútua que a cada olhar

se desfigure e se refaça – roteiro de outra viagem

longe e perto

Não vim de longe nem de perto

Acho que estou aqui há muito

Entre arbustos  e flores amarelas

Misturada ao dia e a tantas cores

A noite me ausento

Costurando segredos

Tenho sido assim

Espécie nativa, ribeirinha, estelar

Reta, curva, inércia e velocidade

Caminhando por trilhas da imaginação

Amando no escuro

Roubando sementes

Pra criar meu próprio jardim

Não vim de perto e já fui longe

Em toda viagem, ausência, emboscada

Sobrevivi por ter uma asa aqui

Pedra angular, terra e água

Acácia, palmeira, jasmim

Pequeno gomo, um amigo gnomo

Massa de modelar entre as mãos

Inventando formas, desenhando mundos

Brincando de ser e de não ser

Amando em silêncio

De  mais

De   vagar

em algum lugar do passado (ou beirando o Rio Douro)

Imagem

 

Um tempo sem pressa

nos comboios que levam

para algum lugar sem precisar qual

o caminho se faz ritmo

nos trilhos a segurança

de um percurso sólido

ainda que sem motivos

 

É impossível conter a estranheza

de um sentimento quase nostálgico

sem saber do que

a viagem beira o rio

um rio imenso que rega a terra

a terra áspera que marca o homem

que ali vive com sonhos tão próprios

como a paisagem que avisto

imagem colada na retina

irá com ele aonde ele for

ficará guardada por tantos anos

quantos for preciso para lá um dia voltar

 

E eu, passante por esta e outras vias

atravessando-as com minha perplexidade curiosa

deixo-me marcar pela força da região

que passa a existir um pouco em mim

somada a tantas outras – histórias de homens e de lugares

um passado puro rastro