A mancha de sangue no tênis branco
Destoava das cores pastéis do fim da tarde.
A mancha de sangue no tênis branco
Destoava das cores pastéis do fim da tarde.
Abriu o livro na página que faltava
e nunca mais foi o mesmo.

Mar ou ar
Flor ou cor ?
O que importa se ao te ver
Caem por terra todas as minhas convicções ?
Tudo que defendo ou nego fica pequeno
E eu me vejo
Paralela ao mundo
A traçar diagonais e círculos
A falar pelos olhos
A olhar em silêncio
Evitando chegar tão perto
De onde não seria mais permitido
A mim ou a você
Partir ou chegar
Sorrisos esvoaçando na noite
mãos se inscrevendo no rosto
esboçando poemas perseguindo contornos
o calor dos corpos
A palavra que tudo mudaria
(agora dita) a chave da casa
a carta de amor
a caixa
Nosso amor sem retratos
alguns ecos do passado
um chalé em uma exata praia
inexata
Estradas sem fim
o abandono de quem confia
(ainda que arrisque)
a entrega plena
o ir e vir
como sabem fazer as marés
Somos feitos de inúmeras teias
terras, afetos e abandonos
a infância é fábrica de sonhos
lendas e fabulações
a adolescência é descoberta
insensatez, queda livre e busca
de códigos que esclareçam o mundo
mapas para inserir-se nele
O tempo – esse espanto –
vai nos mostrando
a metamorfose que somos
o terreno sempre movediço
a cronologia dos sonhos
as ruínas dos planos
E o sentido de tudo ?
Tudo é sempre viagem
Levo no bolso a identidade prescindível
sei de cor nome, endereço, códigos de convivência
investigo a vida das formigas e invejo os pássaros
que enchem minhas tardes sob as árvores
.
Queria esquecer tantas culpas, reinventar palavras
as que conheço não me exprimem
ponho todas no liquidificador e ainda assim não tem suco
soam rasas, não fazem sulcos na terra ou no peito
.
Quero palavras de criar abismos e alternativas
de avizinharem o outro e talvez possuí-lo
de revelarem-se numa obra mútua que a cada olhar
se desfigure e se refaça – roteiro de outra viagem
Não vim de longe nem de perto
Acho que estou aqui há muito
Entre arbustos e flores amarelas
Misturada ao dia e a tantas cores
A noite me ausento
Costurando segredos
Tenho sido assim
Espécie nativa, ribeirinha, estelar
Reta, curva, inércia e velocidade
Caminhando por trilhas da imaginação
Amando no escuro
Roubando sementes
Pra criar meu próprio jardim
Não vim de perto e já fui longe
Em toda viagem, ausência, emboscada
Sobrevivi por ter uma asa aqui
Pedra angular, terra e água
Acácia, palmeira, jasmim
Pequeno gomo, um amigo gnomo
Massa de modelar entre as mãos
Inventando formas, desenhando mundos
Brincando de ser e de não ser
Amando em silêncio
De mais
De vagar
Um tempo sem pressa
nos comboios que levam
para algum lugar sem precisar qual
o caminho se faz ritmo
nos trilhos a segurança
de um percurso sólido
ainda que sem motivos
É impossível conter a estranheza
de um sentimento quase nostálgico
sem saber do que
a viagem beira o rio
um rio imenso que rega a terra
a terra áspera que marca o homem
que ali vive com sonhos tão próprios
como a paisagem que avisto
imagem colada na retina
irá com ele aonde ele for
ficará guardada por tantos anos
quantos for preciso para lá um dia voltar
E eu, passante por esta e outras vias
atravessando-as com minha perplexidade curiosa
deixo-me marcar pela força da região
que passa a existir um pouco em mim
somada a tantas outras – histórias de homens e de lugares
um passado puro rastro