avise

Não deixe que eu te faça infeliz

Às vezes a gente se distrai

Esquece que o outro também tem seus ais

Que o amor, sem trato, se esvai

Se trago esse assunto agora

Quando tudo ainda são flores

É pra que no final não sobrem apenas espinhos

Por isso esse pedido que parece descabido

Pode esquecê-lo por agora

Mas para nosso próprio bem

Me avise a hora de partir

distâncias

De longe tento contato

Penso em você

O telefone desligado

Produz uma distância inesperada

Vagueio por paisagens involuntárias

Sei que poderia seguir por qualquer lado

Não trago mapas, exercito meu senso de direção

Que é vago, displicentemente.

Talvez eu queira me perder

Sento-me num local público

Roubo trechos de conversas alheias

Em línguas que não procuro identificar.

Alguns olhares cruzam os meus

Em uns, percebo, a mesma inquietude

Outros apenas fotografam a paisagem

Para mais um álbum sem ninguém

Minhas fotos tem legendas

Que ao invés de explicar, interrogam

Ao fim do dia se alguém perguntar

Não saberei dizer onde estive ou porquê

E no dia seguinte novamente

Vagarei pelas ruas

Transitarei por pensamentos alheios

Evitando meus labirintos

Talvez fique tonta de muito respirar

Talvez encontre um barco para voar

Uma rima velha para brincar

Uma outra forma de olhar

E tentarei mais uma vez seu telefone

Como se discando esse número

Eu pudesse te tocar

caderno sem pauta

Escrevo, na quietude da serra,

Lugar onde me apercebo do mundo com mais clareza

Sei da solidão e do silêncio que terei de percorrer

Da viagem difícil e da volta

Sanar esta saudade de mim mesma

E nem sei bem onde me deixei

Escrevo, agora como se nunca o tivesse feito

Tento um diálogo, mas não há mais ninguém

Meus sentimentos estão inabordáveis

Sento-me na fronteira do dia com um rio largo

Há corredeiras em algum lugar de mim

casa de boneca

Fácil assim ter muitos filhos

Panelas de todos os tipos

Comida pronta a qualquer hora

Sol brilhando noite e dia

Um sem fim de artifícios

Fim-de-semana nas terças

Um terço rezado noite inteira

Um fio trançando o destino qual desejo

Belo perfil desenhado a bico de pena

Se a dor vier, virar a página

Mudar as peças de lugar

Rasgar as horas, se pesarem muito

Devorar livros, exercitar mundos

Todos num mesmo mínimo lugar

Felicidade plena

Alma de brincar

(homenagem a Tia Loly, que há um ano partiu para uma outra casa) 

a ponte

Cruza comigo essa ponte

Vem, me conta como foi seu dia

Me encanta com um simples sorriso

Me leva  pra dentro de você

Não precisa me dar certezas

Sou equilibrista e assim me habito

Não preciso de muito

E de garantia nenhuma

Se quiser, mergulho

Sei que as águas são turvas

Talvez frias, mas aceito o desafio

Cruza comigo essa fonte

Se arrisca 

ALGUMA CERTEZA

A vida é feita de silêncio e vozes, de força bruta e sutis afagos

A vida é recheada de sustos, paixões, parcas cortando fios.

A vida numa tela 30X40 fica de bom tamanho ?

Dá pra se comprar alguma já com esboço, pra se ter uma idéia ?

Já sei, já sei, sem esboço, sem garantia ou direito a troca.

Fico com essa mesmo, fazer o quê ?

 

Compro manuais, acordo cedo, faço ta-i-chi, digo que estou OK,

mas minha economia interna parece deliciar-se com o caos.

Quanto vale o carro zero, as metáforas, as horas que perco a me enredar ?

Difícil avaliar se na primavera tudo muda.

 

A vida é feita de instantes que se somam, dividem, dispersam

E aquela tela na parede da sala: com casa, trem e fumaça ?

Bom também o retrato com as crianças todas no quintal.

Tá bom, já sei, a vida não é uma pintura ou foto na parede.

 

Na varanda minha onze-horas se recusa a abrir antes das treze.

Vindo de não sei onde um galo canta e a tarde cai.

Meu dia descompassa.

 

(do livro fronteiras, vânia osório, sette letras)

perto de chegar

Não morro cada dia um pouco

Como dizem por aí ou como querem alguns

Morro muito às vezes e nada em outros momentos

Da mesma forma que certas coisas me fazem feliz

E outras não me passam nada

 

Quem mora em mim agora me diz que devo ser mais

Não especifica mais em que

Por isso vou sendo ao meu bel prazer

mais preguiçosa, mais sensível

Mais água e menos molde

 

Não ganho nada com isso, tão pouco perco

Estou cansada deste olhar capitalista

Até mesmo sobre a existência

Existir, por si só, já é tão difícil

Precisa ter preço ?, cotação na bolsa de futuros?

 

Meu futuro não vale tanto, nem tão pouco

Ele será qualquer coisa de bem comigo

Algo como um lago, um sonho, um sorriso

 

De todas as vidas que vivi e morri, de algumas renasci melhor

De outras (como daquela em que te amei) não pude me recuperar

As cinzas estão por aí, dá pra sentir algumas delas

Em dias de ventania, um pouco antes da chuva

E quem me conhece pode perceber o luto ainda

Por esta (aquela) que sonhou ser feliz

 

Agora, de futuro e de passado, faço uma colcha de retalhos

Algo do que vivi se embaraça com o que quis e não pude

Com o que desejei e não tive coragem

Com os castelos de areia que esfarelaram em minhas mãos

Com os momentos em que quase cheguei

Mas minhas asas derreteram antes do tempo

 

 

Uma colcha de retalhos e algumas fotos em preto e branco

Meu mundo de mais ninguém

Minha verdade tão parecida com qualquer outra tão inventada

A solidão concreta no assombro da noite

O susto de não reconhecer no corpo ao lado

Um porto ou porta, não decifrar o cheiro e nenhum sonho

 

Já morri sim, tantas vezes

E nesta que sou hoje, você talvez jamais reencontre

Alguém que se julgou capaz de reinventar o mundo

De deixar uma marca própria nesta desidentidade global

Nem aquela que um dia jurou amor eterno

E precisou se matar tantas vezes

Para arrancar de si essa obsessão

bem temperado

Deixarei de lado seu olhar de quem tudo sabe

Sorriso esfacelado num deboche diário

Que talvez zombe de si mesmo

Esquecerei, ainda que por minutos,

Sua TPM masculina, sua pretensa racionalidade

E aceitarei um encontro.

Usarei um perfume forte e doce

Batom vermelho reforçando o sorriso ensaiado

Marcarei um dia em que não esteja quase menstruada

(que duas TPMs juntas podem causar um atentado)

E serei lógica, romântica, obsessiva, destemperada

Ou simplesmente desviarei no último instante

E, a pretexto de ir ao banheiro, irei embora.

paradise

Não me leve a mal

mas estou de partida

esqueci de dizer que a vida

não é só essa janela e esse quintal

lá, depois das árvores, há distâncias

e, dentro delas, histórias por acontecer

 

aqui talvez você tenha um futuro promissor

comprado à prestação e com seguro contra todos os riscos

lá não, se você cair, cairá

se morrer, morrerá

mas a vida será mais viva

 

não assim – servida em chávenas de chá

e pílulas