dois (vania)

Veio o dia e era redondo

Antes da chuva cair, ela, a noite,

Sequer esboçava contornos

O dia rolava de um lado para o outro

Enquanto brincávamos

Despreocupados e perdidos

Numa alegria simples e sem culpas

A chuva nos arrancou das nuvens

A noite-rede se jogou sobre nós

Uma onda imensa nos abraçou

nos pegou sem fôlego

Sem tempo de escolher

Guelras ou pulmões

Pele ou escamas

E assim ficamos

Metade-metade

descaminho

Pode ser que a vida mude

Pode ser que não

O mundo anda às vezes de lado

Qualquer um que já passou

Por curvas fechadas

E se obrigou a seguir

por contra-mãos

sabe que o relógio pode ir ou voltar

o sentido de tudo pode

em segundos, mudar

todo amor se esfarelar

e o que se tinha de mais precioso

desaparecer

em preto e branco

Dois refletores tensos me focam

não me assusto

afio a fala

apunhalo.

 

Me viro e vou

atrás deixo o quarto

o corredor e teus olhos

sou dura drástica

sequer me volto.

 

Em instantâneos:

o relógio de pé

a toalha na mesa debruçada

nossa felicidade em close

no porta-retratos.

 

Nem respiro

saio como se não fosse eu

e a vida não tivesse

tantas faces flashes

endereços errados.

 

Desapareço

porta escada

rua afora de mim

dentro da noite velada

numa foto em branco

e perda.

Asas do tempo

Soletro o que não entendo
Na vaga esperança de enfim saber
Rastreio pensamentos
E caio numa espiral sem fim

Enquanto entardece
Me impaciento com o silêncio inabitual
Com o tempo que de repente me sobra
E não sei como preencher

Tenho corrido muito
Perdido horas em engarrafamentos
E marcado tudo em minha agenda eletrônica
Ultimamente utilizo despertador até para dormir

Não vejo a tarde cair em mim
Não pisco, não suspiro, fecho os olhos
Não questiono toda a vã caminhada
E finjo não ver as asas caídas dos meus desejos.

bolhas de sabão

Por que no fundo todas as cidades pequenas se parecem ?

Por que ao meio dia todos desaparecem ?

É um almoço único num anfiteatro onde todos se encontram ?

E depois ?,  Vão todos dormir a sesta ?

Que lugar tão grande guardará tantos sonos ?

Por que no fundo tudo se parece ?

A minha vida e a sua, aparentemente tão díspares,

é só remexer um pouco, haverá lá no fundo uma lembrança triste,

uma antiga paixão, uma ânsia de liberdade,

um medo ou segredo cansado e já sem motivo.

Por que juntando tudo, nada dura para sempre ?

O poema se mistura com a xícara de chá no fim da tarde,

a boneca de pano adormece sobre o primeiro livro,

os sonhos se mesclam, o filho menino, o laço de fita,

Onde fica a jura de amor sem fim, o desejo de correr atrás do arco-íris,

o brincar com bolhas de sabão, em breve desaparecendo no ar, como tudo o mais ?

Tudo o que se juntou, o que poderia ter se deixado ir, simplesmente,

o que nem precisaria ter acontecido, tudo, sem exceção: bolhas de sabão.

Porque no final das contas não há saldos nem dívidas para se levar,

fica tudo por aqui mesmo, fechado num baú ou ao relento.

Porque depois de tudo só restará o bom que foi ou o bem que se fez,

este é o tesouro que não se guarda, e tem seu valor em não ser de ninguém.

pelos ares

De postal em postal (me) decoras parede afora

nesse digo estou bem, feliz até

noutro, entrelinhas, deixo entrever

ligeiro caso de olhar – quase de amor

ainda noutro, tão soturna

influências de uma noite escura

e ainda aquele em que inspirada

revejo romântica, nossos encontros,beijos, disfarces

chego mesmo a pensar em casamento.

Depois desse tão efusivo

segue o reticente e já nem sei se volto

se fico pra sempre à deriva

e daí pro naufrágio é um mergulho

onde pulo, aperto o gatilho

rasgo o livro que escreveria.

Mas por sorte o próximo é tão lindo

rua estreita, casas floridas

adivinho quintais, crianças, queria tanto

cozinhar bem pro meu bem

fazer docinhos, pastéis.

E então um corte/

Lisboa by night emoldurada

e me derramo sedução e fados

depois um poema duro

sem data ou sentimento certo

e o abstrato, irrecorrivelmente hermético

e outros e tantos, variando segundo

meus ares e tempestades

mas no final, afinal, todos se igualam

amor, saudade, te quero

e só por isso

(não pelos exibicionismos poéticos)

eles atravessam o mundo

e em suas mãos

me entregam

Do livro: Sem Alarde, Vânia Osório, Taurus/Timbre

es quinas (vania)

não sei se quem me fascina me domina

ou se quem me matará um dia

foi por quem me apaixonei

e para quem disse, por pura tolice,

que fizesse de mim o que quisesse

agora escrevo com uma caligrafia que não reconheço

como o sorriso, quase um arremedo

me sinto embriagada de mim mesma

não é a lucidez a filha pródiga da loucura ?

ou será o contrário ?

escrevo porque de fato preciso

é minha mão destra e possessiva

que me toma a vida e transmuta em palavras

minha luta diária para ser comum

me faz precisar dela, como dependente química

não posso não escrever

caminho todas as noites

por minhas próprias ruas insólitas e escuras

é inevitável, quase inexorável sina

e só não me afogo em mim

porque transbordo nesses versos

sem rimas, sem tábuas de salvação

cheios de quinas

e esquinas

nossa praia

Tomo emprestado do céu o azul
da areia as marcas
das águas o ritmo
e o abraço mais íntimo
tento resgatar em você

faço versos de verão
debruço sobre o horizonte
meu olhar sem certezas
e afino meus sonhos em outro diapasão

pego letras do teu e do meu nome
conjugando uma possibilidade de encontro
tateio teu corpo em busca de mim
ou de um lugar, um ninho

as águas nos arrastam
misterioso duo, dúbio, desigual
sorrio, faço poemas invertebrados e livres
e me deixo levar