vento sudeste

blasfemo

contra você que não me quer ou não se revela

contra o céu que escureceu sem aviso

o ar pesado, as dívidas, as trincas de azes

que não surgem mais em minhas mãos

quantos verbos imperfeitos

quantos pretéritos sonhados

realidades preteridas ?

forço a tensão de todas as cordas

até que seja quase impossível

permanecer assim

rebentação

eu e meu mutismo provisório

meus escritos em pé de página

bicicleta na madrugada

o mar batendo nas costas da noite

enquanto pedalo ou caminho

uma rajada de vento

e aquele abraço doce e intenso

pelo qual espero

embora pressinta que devo tomá-lo

a força, se preciso

antes que a noite parta

e o dia interdite a paixão

varrendo os desejos para baixo do horizonte

Um dia como outro qualquer

Há dia para tudo, para todos. Hoje se comemorou o dia das Mães. Quem inventou talvez nunca tenha sido mãe, só o tenha feito para vender mais quinquilharias e criar dúvidas: o que comprar para alguém que tem tudo ? E colocar a pessoa na obrigação de ter de inventar algo, só para dizer que lembrou. E desesperar aquele outro que sabe que a mãe necessita de quase tudo, como ele próprio.

Quem criou tal dia talvez não seja mãe, mas tem uma, ou teve. O apelo é comercial, não há dúvida. As lojas se aproveitam disso, as famílias planejam o dia, as crianças pequenas percebem que é um dia especial, mas não o delas, pois não ganham presente. Mas aprendem, desde cedo, que há dias em que se reúnem as famílias e alguns ganham presentes. Aprendem para depois desaprender e, ainda depois, se houver tempo e chance, reaprender.

No Natal ganham todos. Os presentes variam segundo muitas coisas. Nem sempre quem tem mais compra o mais caro. Alguns, que quase nada tem, mergulham num crediário qualquer, mesmo que não o possam pagar, mas, quem sabe, a loteria … Outros, que poderiam comprar uma loja inteira, estão tão tristes ou tão envolvidos consigo mesmos, que mandam a secretária ou qualquer outro escolher, seja lá o que for, só para não passar em branco.

Obrigações. Estas e outras tantas. Podemos fechar os olhos, desligar a TV, não ler jornais, não ouvir rádios. Ainda assim acabaremos pressionados pelo dia disso, daquilo, etc. e tal. E a gente sabe que é uma data vazia – puro apelo comercial – que não deveria existir. Que as pessoas deveriam se abraçar, confraternizar, se presentear quando sentissem um sentimento sincero e profundo neste sentido.

Imagine: você acorda e lembra da sua mãe, de você com ela, numa situação já distante. Lembra dela naquela época, com seu sorriso e rosto mais leve, com a jovialidade que, sem que possamos saber quando ou porque, foi se guardando para alguns raros momentos, como dentro de um sonho ou numa brincadeira aqui ou ali em que a criança acorda dentro da pessoa e, independente de tudo, sorri. Ainda tomado pela lembrança dela assim tão feliz, você compra um presente, ou faz um poema, ou ainda, vai a sua casa e a leva, de surpresa, para lanchar ou almoçar num restaurante especial, ou então tomar sorvete e ver o por do sol . Esse é o dia da sua mãe. E seu também, pois você, e não a mídia, marcou este dia como especial.

Ou seja, um dia para todas as mães é algo inviável, não dá para acreditar que todos os filhos, naquele exato dia queiram, realmente, estar com suas mães. Mas pode ser que os faça lembrar que elas existam, ou ainda, que eles próprios existem dentro de uma instituição que, apesar de muitos considerarem falida, está aí, segurando barras antigas e atuais. Avós recebendo filhos e netos em sua casa por conta de um desemprego. Irmão abrindo a porta para o outro que, por uma separação ou um empreendimento falido, encontra-se temporariamente sem lar.

Mas as instituições estão fragilizadas, o comércio fortalecido. Então vamos comemorar os Dias dos cartões de crédito. E testar a convicção daqueles que dizem que estes dias são pura tolice. Como ? Pergunte a uma mãe para a qual os filhos sequer deram um telefonema no dia de hoje ou então para aquela que esperou por algum deles, numa grande mesa onde a decadente instituição família se reuniu. Não, não pergunte, seria covardia.

dois (vania)

Veio o dia e era redondo

Antes da chuva cair, ela, a noite,

Sequer esboçava contornos

O dia rolava de um lado para o outro

Enquanto brincávamos

Despreocupados e perdidos

Numa alegria simples e sem culpas

A chuva nos arrancou das nuvens

A noite-rede se jogou sobre nós

Uma onda imensa nos abraçou

nos pegou sem fôlego

Sem tempo de escolher

Guelras ou pulmões

Pele ou escamas

E assim ficamos

Metade-metade

descaminho

Pode ser que a vida mude

Pode ser que não

O mundo anda às vezes de lado

Qualquer um que já passou

Por curvas fechadas

E se obrigou a seguir

por contra-mãos

sabe que o relógio pode ir ou voltar

o sentido de tudo pode

em segundos, mudar

todo amor se esfarelar

e o que se tinha de mais precioso

desaparecer

em preto e branco

Dois refletores tensos me focam

não me assusto

afio a fala

apunhalo.

 

Me viro e vou

atrás deixo o quarto

o corredor e teus olhos

sou dura drástica

sequer me volto.

 

Em instantâneos:

o relógio de pé

a toalha na mesa debruçada

nossa felicidade em close

no porta-retratos.

 

Nem respiro

saio como se não fosse eu

e a vida não tivesse

tantas faces flashes

endereços errados.

 

Desapareço

porta escada

rua afora de mim

dentro da noite velada

numa foto em branco

e perda.

Asas do tempo

Soletro o que não entendo
Na vaga esperança de enfim saber
Rastreio pensamentos
E caio numa espiral sem fim

Enquanto entardece
Me impaciento com o silêncio inabitual
Com o tempo que de repente me sobra
E não sei como preencher

Tenho corrido muito
Perdido horas em engarrafamentos
E marcado tudo em minha agenda eletrônica
Ultimamente utilizo despertador até para dormir

Não vejo a tarde cair em mim
Não pisco, não suspiro, fecho os olhos
Não questiono toda a vã caminhada
E finjo não ver as asas caídas dos meus desejos.

Como semear leituras ?

Tirei estas fotos no interior de Portugal.

Era uma cidade qualquer num lugar aleatório,

poderia ter sido apenas uma cidade bonita numa  foto,

mas lá estava este furgão,

com uma proposta de encantar corações.

Semeando leituras. Sonho ? Realidade ?

Não parei para perguntar, para saber mais.

Estava só de passagem, voltando para Lisboa

e depois ao Brasil.

Trouxe de lá esta foto-semente,

este desejo.

bolhas de sabão

Por que no fundo todas as cidades pequenas se parecem ?

Por que ao meio dia todos desaparecem ?

É um almoço único num anfiteatro onde todos se encontram ?

E depois ?,  Vão todos dormir a sesta ?

Que lugar tão grande guardará tantos sonos ?

Por que no fundo tudo se parece ?

A minha vida e a sua, aparentemente tão díspares,

é só remexer um pouco, haverá lá no fundo uma lembrança triste,

uma antiga paixão, uma ânsia de liberdade,

um medo ou segredo cansado e já sem motivo.

Por que juntando tudo, nada dura para sempre ?

O poema se mistura com a xícara de chá no fim da tarde,

a boneca de pano adormece sobre o primeiro livro,

os sonhos se mesclam, o filho menino, o laço de fita,

Onde fica a jura de amor sem fim, o desejo de correr atrás do arco-íris,

o brincar com bolhas de sabão, em breve desaparecendo no ar, como tudo o mais ?

Tudo o que se juntou, o que poderia ter se deixado ir, simplesmente,

o que nem precisaria ter acontecido, tudo, sem exceção: bolhas de sabão.

Porque no final das contas não há saldos nem dívidas para se levar,

fica tudo por aqui mesmo, fechado num baú ou ao relento.

Porque depois de tudo só restará o bom que foi ou o bem que se fez,

este é o tesouro que não se guarda, e tem seu valor em não ser de ninguém.

pelos ares

De postal em postal (me) decoras parede afora

nesse digo estou bem, feliz até

noutro, entrelinhas, deixo entrever

ligeiro caso de olhar – quase de amor

ainda noutro, tão soturna

influências de uma noite escura

e ainda aquele em que inspirada

revejo romântica, nossos encontros,beijos, disfarces

chego mesmo a pensar em casamento.

Depois desse tão efusivo

segue o reticente e já nem sei se volto

se fico pra sempre à deriva

e daí pro naufrágio é um mergulho

onde pulo, aperto o gatilho

rasgo o livro que escreveria.

Mas por sorte o próximo é tão lindo

rua estreita, casas floridas

adivinho quintais, crianças, queria tanto

cozinhar bem pro meu bem

fazer docinhos, pastéis.

E então um corte/

Lisboa by night emoldurada

e me derramo sedução e fados

depois um poema duro

sem data ou sentimento certo

e o abstrato, irrecorrivelmente hermético

e outros e tantos, variando segundo

meus ares e tempestades

mas no final, afinal, todos se igualam

amor, saudade, te quero

e só por isso

(não pelos exibicionismos poéticos)

eles atravessam o mundo

e em suas mãos

me entregam

Do livro: Sem Alarde, Vânia Osório, Taurus/Timbre