Caminhos rotos 1

Caminhos rotos 1

Moro onde jurei jamais passar
Fiz coisas que prometi nunca repetir
(embora siga fazendo sem conseguir evitar)
Menti sobre mim mesma de tal forma
Que nem mais posso distinguir
O falso do provisório

Se tivesse naquela época
Noção de que a vida dura um bom tempo
Talvez tivesse falado só verdades
De qualquer modo pensariam que mentia
Mas estaria livre
Não prisioneira de meus devaneios

Nesta casa que garanti não pisaria
Ao lado de quem jamais estaria
Observo o caminho das águas
Os desvios do destino
E ouço ao longe o riso nervoso
Daqueles que evitei e que me aguardam

Se tivesse tido coragem
De virar a mesa na hora certa
A vida hoje seria outra
Uma outra casa onde numa mesa virada
Beberia vinho e talvez até brindasse
com os indesejáveis

Agora eu sei
Nao se foge de si mesmo
Uma vida inteira
No último instante ou quase
O amante do momento retira a máscara
E é você mesma a peça que faltava.

Mais uma Osorio pra chupar a rapadura…

 

H2O

Quando o céu parecia querer chorar

Dentro de mim já se tinha feito tempestade

Resolvi sair pela cidade pra não transbordar

Imunda, inundada daquele “mês-maremoto”

Perdi a metade esperança, fiquei toda solidão

Meus cabelos ventaram até o destino

Embaraçados como meu coração

Entrei de fininho naquele mundo de pernas grossas

Seria meu destino acabar ali?

Comecei conversas secas, desconversadas

Palavras desperdiçadas, perdidas, jorradas

Mais um gole, dois, três copos

 A garrafa inteira vazia pro tempo passar

Mas quem passou foi você

 E eu fiquei

Fiquei ouvindo você me imitar

Sem nem ao menos me conhecer

Em um minuto já era muito,

Muito tarde pra te largar

A água agora só caía lá fora

Aqui dentro uma sede…

poemas ao vento

Poemas ao vento .

pensei te dizer que a vida parece um circo

desses pequenos, de interior, cheios de erros e improvisos

mas a imagem não iria te agradar e calei

queria ter dito também que às vezes o medo é algo palpável

veste um sobretudo grosso e anda devagar

mas estávamos com pressa ou algum assunto diário

ocupou nosso espaço e a coisa passou

agora, depois de tantos quase ditos

te observo dessa distância que se fez entre nós

teria sido diferente se tivéssemos ido ao interior

e assistido ao circo desorganizado de nós dois ?

teria sido melhor se você tivesse apertado a mão

do companheiro de sobretudo que rondava nossa casa ?

e se eu tivesse falado com você que sabia da sua dor

da culpa que nunca te deixou dormir direito ?

teríamos sido diferentes, com certeza

nem melhor nem pior, provavelmente apenas diferentes

e talvez ainda assim desnudados, estivéssemos agora

emparedados em nossas solidões

talvez ainda agora o silêncio escavasse nossos dias

concreto e sólido – inarredável e bruto

talvez, mas o talvez deixa sempre em aberto

e move estrelas diferentemente do nunca

agora não há circo nem luzes no nosso palco

mas não longe daqui

o equilibrista segue concentrado em seu número

e o sobretudo descansa sobre a cadeira

distraindo a noite

Distraindo a noite

antes que eu me pegue pensando em você

ou acabe a noite jogando paciência impaciente no computador

ponho um belo par de brincos e saio

talvez você me veja do seu firmamento

se lembre de mim nos melhores momentos

não sei, sei que saio de casa pra distrair a noite

caminhar um pouco, encontrar amigos

falar coisas tolas, leves, quem sabe arriscar de novo

pego uma barca e atravesso meu próprio silêncio

queria não ter de ouvir de mim mesma

que acabei perdendo a chance

a hora não é mais essa

agora estão todos com pressa

nem um poema, ainda que breve

cabe nessa confusão

olho sem ver a cidade adormecer

as luzes inventam finos traços no meu horizonte

os sons chegam misturando palavras e ruídos

afio os ouvidos e tento captar

uma história possível de ser escrita

uma confissão capaz de mudar a história

uma declaração de amor

mas só ouço funk e um pigarro ou outro

aqui e lá, luzes difusas

nessa noite inacabada

 

barco-foguete

não é mais hora de abrir caixa de mensagens
mas a noite chegou solitária, o sono ainda não
e então remexo meus e-mails
como se dentre eles pudesse haver algo
um chamado, uma palavra mágica, sei lá
o mapa da mina

fico ensimesmando que mina seria
de ouro ou de felicidade ?
de amor ou sucesso ?
por que a vida é assim tão dual ?
como ser só isso ou aquilo ?

me vejo numa encruzilhada
todos os caminhos são caminhos
e me atraem na mesma intensidade
não dá pra sermos múltiplos e simples
ao mesmo tempo ?
receio que não, receio que sim

ou somos básicos demais ou sem fim
retrógrados, devagar quase parando
ou nosso barco virou foguete e sumiu
difícil encontrar pares ímpares
mais difícil ainda apaziguar demônios

Às vezes me canso, me rendo
e pratico ser simples e banal
mas confesso, é muito complicado.

 

nem sempre seremos felizes

alegres talvez, a maior parte do tempo

por coisas pequenas, diárias, fugazes

exercitando a alegria como um hábito

um banho morno, flexões ao acordar

uma boa risada, encontrar velhos amigos

fazer as pazes, brincar com crianças

ver Tom e Jerry, dançar um merengue

no meio da sala, ainda que só

 

raramente seremos o máximo

mas a média tem suas vantagens

como o anonimato sem compromissos

as besteiras que não são notadas

o beijo roubado que não sai na mídia

 

nem sempre seremos tristes

é só questão de tempo

esse sim dono de todos (os) nós. 

Diet

A faca fácil

O garfo magro

O prato fundo

No raso dos olhos

Fome ou medo ?

 

A boca murcha

No mastigar das horas

O prato feito

A água no copo

O oceano em pó

 

 

A faca e o corte

O travo da acelga

O óbvio do orégano

A carne crua

A vida passando lá fora

 

O garfo de peixe

O peixe póstumo

As guelras e a guerra

O olho opaco

O brilho dos talheres

 

A festa em que te procuro

E não encontro

Ou finjo

Não te encontrar

 

A fresta por onde olho

E não vejo

Além do fundo

Do prato raso

Sem riscos

Sem mais

Speeding Limit (cacá)

Como a Vânia é ocupada demais para fazer o primeiro post, eu, Cacá vou postar aqui algo de minha autoria para a inauguração.

Speeding Limit

I had a hole future up ahead, but I lost the last exit, now I’m just driving. Driving, heading to nowhere, no place to go, no place to come back to. I lost my home, I lost my dreams. Now, it’s me and the unknown road. It’s raining. But I don’t care anymore, it’s me and nothing. I can’t feel a thing beside this emptiness. Me and the dark … unknown road.

I turn off the lights.

I close my eyes.

Waiting for the next curve, that I won’t see.

It’s dark and silent.

Please come now my last curve.

Cacá Osório

estrada-chuvosa1

Para aqueles que não entendem inglês, aqui vai a tradução.

Eu tinha todo um futuro à minha frente, mas perdi a última saída, agora apenas dirijo. Dirigindo, indo para o nada, nenhum lugar para ir, nenhum lugar para voltar. Perdi minha casa, perdi meus sonhos. Agora, sou eu e a estrada desconhecida. Está chovendo. Mas eu não me importo mais, sou eu e nada. Eu não sinto nada além deste vazio. Eu e a desconhecida e escura estrada.

Desligo os faróis.

Fecho os olhos.

Esperando pela próxima curva, que não verei.

Está escuro e silencioso.

Por favor, venha agora, minha última curva.

Cacá Osório

estrada-chuvosa