urdidura

image by Alastair Stockman

não posso dizer que te espero

tão pouco que esqueci de ti

carrego todos os dias um peso

um monte de coisas por dizer ou fazer

uma pressa de quem não tem absolutamente nada depois

medo do deserto, medo do desejo

você iria comigo ao fim do mundo ?

confesso que te deixaria no caminho

alheia ao seu chamado ou não

entretida com algum atalho ou erro

sempre me perco

pelo sim ou pelo que calo

sigo alguém em mim

não sou eu, juro

não fui eu quem te disse tudo que disse

(nem o que você amou em mim)

não fui eu quem rasgou a carta sem ler

ou virou as costas sem ouvir as explicações

não havia mais espaço ou tempo para elas, concorda ?

há um tempo, que parece eterno, onde vamos levando

levando a vida, as brigas, os silêncios,

mas em algum momento, curva ou crise

a última gota faz transbordar a represa

o último oásis faz o deserto assolar o mundo

e parece que tudo aconteceu de repente

tolice, o presente começa lá atrás

e vai arrastando com ele todo o futuro

o que sonhamos, o que desejamos,

o que parecia ser tão certo.

você gostaria de voltar, tentar de novo ?

esta aí uma pergunta que nem tento responder

seria como desmanchar um casaco de crochê

para refazer ponto a ponto

talvez ficasse melhor

mas a marca do anterior estaria ali

denunciando a dor antiga e o desespero novo

a esperança e sua parceira

a noite e sua sombra escura

o sonho e seu pesado elo com a realidade

por isso ou por nada é que calo

não te digo o que penso

e se dissesse não entenderia

guardo as palavras atrás do armário

os sonhos entre as fotos de criança

e minto para mim todo o tempo

invento passeios no fim da tarde

abraços em corredores escuros

invento ondas e areia

tomo sol num dia inventado

furo ondas que são puro pensamento

velejo num barco de cores e traços

naufrago num céu azul anil

durmo e acordo numa cama estranha

e me toco na ânsia de saber de mim

se eu gostaria de reescrever esta história?

acho que sim, mas não tenho coragem, ou força, não sei

você reescreveu qualquer coisa ao falar do seu passado?

tenho medo de voltar

morro de medo de ter sido pior do que já sinto

ou de, ao chegar lá,  não conseguir sair.

boca poema

image by Ruzno Pace

Espero

Penso na vida

Resgato lembranças

Ouço músicas repriso cenas

Meu espaço está vazio

Porque você não fala comigo

Pego o carro

Sigo até a última praia

Escura perdida em mim

Fim de rota de linha

Puxo fios costuro a noite

Alinhavo questões escorregadias

Fumo viajo sorrio entristeço

É duro fazer o mesmo percurso

Agora sozinha

É noite e sigo sem notícias

Não entendo

Tenho medo de imaginar coisas

Poderia pegar outra estrada

Fugir deste enredo

mas ainda estou tomada

seus olhos a me penetrar

ainda sinto suas mãos

abrindo caminhos se/me revelando

sua boca na minha

que passa o tempo em que te habita

a balbuciar poemas

gota num oceano

Quando a vela baixou

Só restou o casco

Em sua nudez frágil

 

Diante do mar imenso

Não havia nada

Que pudesse fazer crer

Que nele houvesse vida

 

 

A morte, com certeza,

Habita a vida e a vigia

Mas aquele barco mais parecia

Um menino perdido

À  deriva de si mesmo

Como um verso

Na vastidão de um romance

abismando

Levo no bolso a identidade prescindível

sei de cor nome, endereço, códigos de convivência

investigo a vida das formigas e invejo os pássaros

que enchem minhas tardes sob as árvores

.

Queria esquecer tantas culpas, reinventar palavras

as que conheço não me exprimem

ponho todas no liquidificador e ainda assim não tem suco

soam rasas, não fazem sulcos na terra ou no peito

.

Quero palavras de criar abismos e alternativas

de avizinharem o outro e talvez possuí-lo

de revelarem-se numa obra mútua que a cada olhar

se desfigure e se refaça – roteiro de outra viagem

minimamente

Se faz noite em pleno dia

O chão falseia, tudo muda de lugar

O breu engole as cores e as saídas

E falta o ar, os motivos 

De repente, gestada às escondidas

Uma flor brota do nada (do tudo)

E na calçada do teu coração

Uma raíz rompe o concreto

Outro beijo, outros braços

Apontam inesperada direção

Nasce novo dia

Não importa se dentro da noite ou em outra vida

Luz no fim do túnel

Mínima flor sorri

Voz e silêncios

Ouço vozes distantes

De tão longe não posso ver

Mas ouço, por um canal de vento

Há uma explicação para isso

Que desconheço, mas o som chega

Houve um tempo em que tentava descobrir

Para além de cada carreira do cafezal

De cada moita de bambu

Os donos das vozes

Mais tarde passei a me concentrar

Unicamente nas vozes

Tentando captar os diálogos

Ouvi conversas fúteis

Juras de morte, intrigas

Nada disso me interessou

Hoje olho a imensidão

Não decifro palavras no vento

Sei que toda gente sonha, sofre, sorri

Só, mergulho no vasto do existir

Sem explicações, sem filosofias

As perguntas (inumeráveis), calo

Fico a escutar o ar, o tempo

A observar distâncias

Paisagens, poemas.

movediço

Não somos iguais

Sequer parecidos

Onde nos vemos hoje

Já nos vimos outro dia

 

Cada um ensimesmando:

Onde foi que nos plugamos ?

Os dois procurando:

Onde foi que nos perdemos ?

 

Não somos parecidos, nem poderíamos

não me pareço com quem fui ontem

talvez você seja quem diz, mas desconfio

que o caminho que trilhamos é movediço

 

As vitórias, aos poucos, viram troféus

sobre os armários, diplomas emoldurados

grudamo-nos nas paredes

passado, passado, passado

 

Não somos bons nem maus

erramos aqui e ali, muito ou quase

tentamos um final feliz, bem sei

mas não fomos competentes nisso

 

Racionalizamos tudo

a felicidade, fica para onde ?

dá para pagar com cartão ?

fomos iludidos ou somos ilusão  ?

 

Olho a tarde, única certeza

algumas coisas tardam

outras nem chegam

e tudo, um dia, passa.

breve hiato

Me desculpo agora pelo silêncio

Que mastigou minha fala nestas últimas semanas

Não haveria porque fazê-lo se não fosse eu mesma

Aquela que se inquieta com isso

 

Mas, para meu alívio, algo entre a redenção e um novo precipício

Informo que o silêncio foi um tempo digestivo

Uma cobra que devorou um boi

Uma corda que se enredou em mil nós

 

Observo agora a mínima vida que germina

A semente que caiu em solo inábil

Mas que ainda assim, encontrou caminho,

será uma árvore forte, ainda que retorcida

 

Me apaziguo com minha temporária ausência

Agora que as palavras transbordam

Boi digerido pela cobra

Onda rebentando ao pé da casa

 

Queria convidar os amigos

Reuni-los em volta de uma fogueira

Ver queimar beijos partidos

Ler nas chamas um novo dia

 

Tenho tentado traduzir o indizível

Abraçar o alto da montanha, tocar o frio

Mas a voz que jorra palavras no papel

Nada explica, lança chamas, perguntas.