um

 

Tive vontade de te escrever

Talvez por efeito de poemas relidos

Dum flerte avesso num viés da madrugada

Da rua vazia, do vento frio

Derramei palavras como quem chora

O lado cético esquerdo de mim

Forçando a mudar de assunto

Ligar a tv, o som

Mas havia um ímpeto, quase um grito

E fui escavando o resto da madrugada

FUTUROS

Quem olha assim de longe o horizonte

espera alguém ou pensa em quem partiu ?

terá saudades de ontem ou de um futuro qualquer?

decide ficar ou planeja partir antes de um novo dia ?

Que diálogos sem palavras trocarão seus inúmeros habitantes ?

a princesa do alto da torre, a cigana, a cigarra, a flor do deserto

a menina que um dia sonhou ganhar o mundo a qualquer custo?

qual delas vencerá neste minuto ?

Qual delas cairá para sempre após a próxima escolha ?

Peças de um dominó de brinquedo

Folhas novas de uma árvore antiga

Em que baú guardar (ou não) tantas faces e desejos ?

França, junho, 2010

vento sudeste

blasfemo

contra você que não me quer ou não se revela

contra o céu que escureceu sem aviso

o ar pesado, as dívidas, as trincas de azes

que não surgem mais em minhas mãos

quantos verbos imperfeitos

quantos pretéritos sonhados

realidades preteridas ?

forço a tensão de todas as cordas

até que seja quase impossível

permanecer assim

rebentação

eu e meu mutismo provisório

meus escritos em pé de página

bicicleta na madrugada

o mar batendo nas costas da noite

enquanto pedalo ou caminho

uma rajada de vento

e aquele abraço doce e intenso

pelo qual espero

embora pressinta que devo tomá-lo

a força, se preciso

antes que a noite parta

e o dia interdite a paixão

varrendo os desejos para baixo do horizonte

dois (vania)

Veio o dia e era redondo

Antes da chuva cair, ela, a noite,

Sequer esboçava contornos

O dia rolava de um lado para o outro

Enquanto brincávamos

Despreocupados e perdidos

Numa alegria simples e sem culpas

A chuva nos arrancou das nuvens

A noite-rede se jogou sobre nós

Uma onda imensa nos abraçou

nos pegou sem fôlego

Sem tempo de escolher

Guelras ou pulmões

Pele ou escamas

E assim ficamos

Metade-metade

em preto e branco

Dois refletores tensos me focam

não me assusto

afio a fala

apunhalo.

 

Me viro e vou

atrás deixo o quarto

o corredor e teus olhos

sou dura drástica

sequer me volto.

 

Em instantâneos:

o relógio de pé

a toalha na mesa debruçada

nossa felicidade em close

no porta-retratos.

 

Nem respiro

saio como se não fosse eu

e a vida não tivesse

tantas faces flashes

endereços errados.

 

Desapareço

porta escada

rua afora de mim

dentro da noite velada

numa foto em branco

e perda.

Asas do tempo

Soletro o que não entendo
Na vaga esperança de enfim saber
Rastreio pensamentos
E caio numa espiral sem fim

Enquanto entardece
Me impaciento com o silêncio inabitual
Com o tempo que de repente me sobra
E não sei como preencher

Tenho corrido muito
Perdido horas em engarrafamentos
E marcado tudo em minha agenda eletrônica
Ultimamente utilizo despertador até para dormir

Não vejo a tarde cair em mim
Não pisco, não suspiro, fecho os olhos
Não questiono toda a vã caminhada
E finjo não ver as asas caídas dos meus desejos.

pelos ares

De postal em postal (me) decoras parede afora

nesse digo estou bem, feliz até

noutro, entrelinhas, deixo entrever

ligeiro caso de olhar – quase de amor

ainda noutro, tão soturna

influências de uma noite escura

e ainda aquele em que inspirada

revejo romântica, nossos encontros,beijos, disfarces

chego mesmo a pensar em casamento.

Depois desse tão efusivo

segue o reticente e já nem sei se volto

se fico pra sempre à deriva

e daí pro naufrágio é um mergulho

onde pulo, aperto o gatilho

rasgo o livro que escreveria.

Mas por sorte o próximo é tão lindo

rua estreita, casas floridas

adivinho quintais, crianças, queria tanto

cozinhar bem pro meu bem

fazer docinhos, pastéis.

E então um corte/

Lisboa by night emoldurada

e me derramo sedução e fados

depois um poema duro

sem data ou sentimento certo

e o abstrato, irrecorrivelmente hermético

e outros e tantos, variando segundo

meus ares e tempestades

mas no final, afinal, todos se igualam

amor, saudade, te quero

e só por isso

(não pelos exibicionismos poéticos)

eles atravessam o mundo

e em suas mãos

me entregam

Do livro: Sem Alarde, Vânia Osório, Taurus/Timbre

Festival Literário de São João del Rey

O 4o. Festival de Literatura de São João del Rey, acontecerá entre os dias 26 e 28 de novembro. A homenageada é Ana Maria Machado. Para saber a programação visite o site da Felit ou o blog  estilingues.wordpress.com

Três autores do projeto Estilingues, Alexandre Brandão, Sônia Peçanha e Vânia Osório, darão oficina no dia 27.