movediço

Não somos iguais

Sequer parecidos

Onde nos vemos hoje

Já nos vimos outro dia

 

Cada um ensimesmando:

Onde foi que nos plugamos ?

Os dois procurando:

Onde foi que nos perdemos ?

 

Não somos parecidos, nem poderíamos

não me pareço com quem fui ontem

talvez você seja quem diz, mas desconfio

que o caminho que trilhamos é movediço

 

As vitórias, aos poucos, viram troféus

sobre os armários, diplomas emoldurados

grudamo-nos nas paredes

passado, passado, passado

 

Não somos bons nem maus

erramos aqui e ali, muito ou quase

tentamos um final feliz, bem sei

mas não fomos competentes nisso

 

Racionalizamos tudo

a felicidade, fica para onde ?

dá para pagar com cartão ?

fomos iludidos ou somos ilusão  ?

 

Olho a tarde, única certeza

algumas coisas tardam

outras nem chegam

e tudo, um dia, passa.

breve hiato

Me desculpo agora pelo silêncio

Que mastigou minha fala nestas últimas semanas

Não haveria porque fazê-lo se não fosse eu mesma

Aquela que se inquieta com isso

 

Mas, para meu alívio, algo entre a redenção e um novo precipício

Informo que o silêncio foi um tempo digestivo

Uma cobra que devorou um boi

Uma corda que se enredou em mil nós

 

Observo agora a mínima vida que germina

A semente que caiu em solo inábil

Mas que ainda assim, encontrou caminho,

será uma árvore forte, ainda que retorcida

 

Me apaziguo com minha temporária ausência

Agora que as palavras transbordam

Boi digerido pela cobra

Onda rebentando ao pé da casa

 

Queria convidar os amigos

Reuni-los em volta de uma fogueira

Ver queimar beijos partidos

Ler nas chamas um novo dia

 

Tenho tentado traduzir o indizível

Abraçar o alto da montanha, tocar o frio

Mas a voz que jorra palavras no papel

Nada explica, lança chamas, perguntas.

um

 

Tive vontade de te escrever

Talvez por efeito de poemas relidos

Dum flerte avesso num viés da madrugada

Da rua vazia, do vento frio

Derramei palavras como quem chora

O lado cético esquerdo de mim

Forçando a mudar de assunto

Ligar a tv, o som

Mas havia um ímpeto, quase um grito

E fui escavando o resto da madrugada

FUTUROS

Quem olha assim de longe o horizonte

espera alguém ou pensa em quem partiu ?

terá saudades de ontem ou de um futuro qualquer?

decide ficar ou planeja partir antes de um novo dia ?

Que diálogos sem palavras trocarão seus inúmeros habitantes ?

a princesa do alto da torre, a cigana, a cigarra, a flor do deserto

a menina que um dia sonhou ganhar o mundo a qualquer custo?

qual delas vencerá neste minuto ?

Qual delas cairá para sempre após a próxima escolha ?

Peças de um dominó de brinquedo

Folhas novas de uma árvore antiga

Em que baú guardar (ou não) tantas faces e desejos ?

França, junho, 2010

vento sudeste

blasfemo

contra você que não me quer ou não se revela

contra o céu que escureceu sem aviso

o ar pesado, as dívidas, as trincas de azes

que não surgem mais em minhas mãos

quantos verbos imperfeitos

quantos pretéritos sonhados

realidades preteridas ?

forço a tensão de todas as cordas

até que seja quase impossível

permanecer assim

rebentação

eu e meu mutismo provisório

meus escritos em pé de página

bicicleta na madrugada

o mar batendo nas costas da noite

enquanto pedalo ou caminho

uma rajada de vento

e aquele abraço doce e intenso

pelo qual espero

embora pressinta que devo tomá-lo

a força, se preciso

antes que a noite parta

e o dia interdite a paixão

varrendo os desejos para baixo do horizonte

dois (vania)

Veio o dia e era redondo

Antes da chuva cair, ela, a noite,

Sequer esboçava contornos

O dia rolava de um lado para o outro

Enquanto brincávamos

Despreocupados e perdidos

Numa alegria simples e sem culpas

A chuva nos arrancou das nuvens

A noite-rede se jogou sobre nós

Uma onda imensa nos abraçou

nos pegou sem fôlego

Sem tempo de escolher

Guelras ou pulmões

Pele ou escamas

E assim ficamos

Metade-metade

em preto e branco

Dois refletores tensos me focam

não me assusto

afio a fala

apunhalo.

 

Me viro e vou

atrás deixo o quarto

o corredor e teus olhos

sou dura drástica

sequer me volto.

 

Em instantâneos:

o relógio de pé

a toalha na mesa debruçada

nossa felicidade em close

no porta-retratos.

 

Nem respiro

saio como se não fosse eu

e a vida não tivesse

tantas faces flashes

endereços errados.

 

Desapareço

porta escada

rua afora de mim

dentro da noite velada

numa foto em branco

e perda.