releitura

Difícil compreender seu poema paulista

seu humor desconcertante

frio como vento cortante

no fim das tardes onde vagueio

por pensamentos sem saída

 

Impossível até acreditar no seu amor anunciado

já que se encontra apertado

na agenda com mil assuntos

e compromissos variados

 

Um dia desses eu me canso

me engano com qualquer outro

entro para alguma seita

queimo suas horas extras

(inclusive as que me incluem)

acendo incenso e te incendeio

minimamente

Se faz noite em pleno dia

O chão falseia, tudo muda de lugar

O breu engole as cores e as saídas

E falta o ar, os motivos 

De repente, gestada às escondidas

Uma flor brota do nada (do tudo)

E na calçada do teu coração

Uma raíz rompe o concreto

Outro beijo, outros braços

Apontam inesperada direção

Nasce novo dia

Não importa se dentro da noite ou em outra vida

Luz no fim do túnel

Mínima flor sorri

saudade

Sinto saudades e me assusto

não gosto de sentir falta assim

não somos tão íntimos

por que então a falta quase física ?

 

Pelos passeios, semelhanças, sintonia ?

Talvez por conta dos pássaros que nos viram

caminhando lado a lado nas últimas semanas

talvez por tudo isso esse vazio, essa página em branco

 

É uma falta que não arranca pedaço

mas a vida seria melhor

se pudesse te ver no fim do dia

 

É uma falta boa, não mata

mas torna evidente como a sua presença

acrescentou cores a  paisagem

artifícios

Um dia você vai perceber

que tudo o que somos é mero artifício

Imagem de miragem por trás de tanta sede

Sombra escura no fundo do espelho

Onde se olha e não se apaixona mais

Onde busca e não encontra conforto algum

Um dia desses o álcool não fará efeito

Nem toda droga dará alívio

Para a hora que não passa

E ao longe o farol aponta o vazio

O sol que se desmancha pó

E o instante perdido de um sonho

Sempre distante e no mesmo lugar.

Voz e silêncios

Ouço vozes distantes

De tão longe não posso ver

Mas ouço, por um canal de vento

Há uma explicação para isso

Que desconheço, mas o som chega

Houve um tempo em que tentava descobrir

Para além de cada carreira do cafezal

De cada moita de bambu

Os donos das vozes

Mais tarde passei a me concentrar

Unicamente nas vozes

Tentando captar os diálogos

Ouvi conversas fúteis

Juras de morte, intrigas

Nada disso me interessou

Hoje olho a imensidão

Não decifro palavras no vento

Sei que toda gente sonha, sofre, sorri

Só, mergulho no vasto do existir

Sem explicações, sem filosofias

As perguntas (inumeráveis), calo

Fico a escutar o ar, o tempo

A observar distâncias

Paisagens, poemas.

a pele que habito – o filme

  O título por si só já é inquietante, algo que normalmente sequer          pensamos         e   que nomeado desta maneira produz algum           incômodo.

    O filme é incrível, mas não vou contá-lo, só aproximar uma lente        de    alguns detalhes que me contundiram.

   São muitas as “desfigurações” que se sucedem. Robert, o médico     e   pesquisador brilhante vê sua vida esfacelar-se e persegue, obstinado, uma forma de reparar ou reconstruir o que perdeu.

Vicente, ainda só parcialmente modificado, ao ouvir do médico que a cirurgia foi um sucesso, pergunta se já pode voltar para casa.  Ainda não, é a resposta.

Mutações mais tarde,  Vera repete a mesma pergunta. Mas o faz igualmente de forma frágil, talvez prevendo a resposta ou mesmo já adaptada a situação do cárcere. Seu contato com o mundo é a televisão que, num programa,  lhe oferece exercícios de libertação, ainda que o corpo esteja preso. No caso a prisão é dupla.

Ela habita uma pele estranha, aprisionada numa casa onde Robert assiste seus movimentos e a deseja através de uma enorme tela. Há um momento em que ela parece ceder completamente, identificando-se com o torturador  – ele mesmo prisioneiro e torturado.

Mas então reencontra seu rosto original, e sob a nova pele que a veste, desperta um desejo de voltar a existir por si só. Toma coragem e parte para reconquistar a liberdade, ainda que limitada pela pele que habita.

movediço

Não somos iguais

Sequer parecidos

Onde nos vemos hoje

Já nos vimos outro dia

 

Cada um ensimesmando:

Onde foi que nos plugamos ?

Os dois procurando:

Onde foi que nos perdemos ?

 

Não somos parecidos, nem poderíamos

não me pareço com quem fui ontem

talvez você seja quem diz, mas desconfio

que o caminho que trilhamos é movediço

 

As vitórias, aos poucos, viram troféus

sobre os armários, diplomas emoldurados

grudamo-nos nas paredes

passado, passado, passado

 

Não somos bons nem maus

erramos aqui e ali, muito ou quase

tentamos um final feliz, bem sei

mas não fomos competentes nisso

 

Racionalizamos tudo

a felicidade, fica para onde ?

dá para pagar com cartão ?

fomos iludidos ou somos ilusão  ?

 

Olho a tarde, única certeza

algumas coisas tardam

outras nem chegam

e tudo, um dia, passa.

breve hiato

Me desculpo agora pelo silêncio

Que mastigou minha fala nestas últimas semanas

Não haveria porque fazê-lo se não fosse eu mesma

Aquela que se inquieta com isso

 

Mas, para meu alívio, algo entre a redenção e um novo precipício

Informo que o silêncio foi um tempo digestivo

Uma cobra que devorou um boi

Uma corda que se enredou em mil nós

 

Observo agora a mínima vida que germina

A semente que caiu em solo inábil

Mas que ainda assim, encontrou caminho,

será uma árvore forte, ainda que retorcida

 

Me apaziguo com minha temporária ausência

Agora que as palavras transbordam

Boi digerido pela cobra

Onda rebentando ao pé da casa

 

Queria convidar os amigos

Reuni-los em volta de uma fogueira

Ver queimar beijos partidos

Ler nas chamas um novo dia

 

Tenho tentado traduzir o indizível

Abraçar o alto da montanha, tocar o frio

Mas a voz que jorra palavras no papel

Nada explica, lança chamas, perguntas.

Festa descolada (deslocada)

Não vim para o jantar

se tivesse vindo teria trazido algo

ainda que fosse um vinho

ou uma sobremesa comprada segundos antes de chegar

E chegaria sorridente, falaria um pouco de tudo

parecendo uma pessoa agradável e de bem com a vida

aos olhos de quem não quer ver

Mas preferi pular esta parte

deixar o cenário livre para outros atores/atrizes

e assumir que hoje em dia prefiro

a companhia das formigas, a vista da minha janela

e qualquer coisa que exija menos esforço

do que fingir inteligência, senso de humor e felicidade

E quer saber ? Não me inclua mais na sua lista

de agradáveis pessoas para uma reunião intimista

não voltarei enquanto a festa for a maneira

de preencher o vazio que nos persegue

Ficarei maturando minha natureza estranha

assumindo a falta de vocação para essa ladainha

não fugirei para uma ilha deserta

(nem sei o que levaria, se tivesse que ir para uma)

ficarei no meu canto, bicho quieto e manso

eu e meus pesadelos, só com meus devaneios.