caminhos de ferro (vania)

Até onde vai a dor ?

Até onde chega o medo ?

E quando chega vem sozinho

Ou traz consigo o terror ?

Até onde vai o cisne

Se o lago é circular e sem saída ?

Até onde voce iria por uma causa,

uma certeza, um amor ?

Para que tantas interrogacões

Se a dúvida é a mola que nos move

Se a noite é o berço do verso

E os dias quase sempre um tédio ?

Onde fica tudo isto

quando tudo acaba ?

No vagão do ontem

Ou na estação do amanhã ?

Amores Vagos

Não saber onde está

No meio da noite

Só a noite

O risco do poema

No asfalto molhado

Nenhuma pista

A madrugada avança

Há telas contra mosquitos

Veias que pulsam motivos

Idéias vagas, vazios

Esquinas e avenidas

Não saber por onde ir

De onde puxar o fio

Se não há endereços exatos

Ou amores oficiais

Só vagos

geometrias (vania)

horizontal, vertical, assimétrico

ao fundo o horizonte em traço reto e sutil

a frente os imponentes verticais coqueiros

entre formas tão claras e precisas

um homem e suas assimetrias

Partir

Sem dizer adeus

Como quem foge

 Ou como quem fecha porta e janelas

Por hábito, mas pela última vez

Partir, sem deixar marcas

Sequer fotos

Como se tivesse durante todo o tempo

Caminhado sobre areia fina

Nenhuma bagagem de mão

Na mala grande de rodinhas

Apenas a esperança

De um outro dia.

madrugada

 

Me leva outra vez àquela curva

onde posso sentir o orvalho e entrever o caminho.

Sei que muitos pássaros preparam-se para deixar os ninhos,

que esta é uma hora mágica (também já tive a minha, e fui)

Num piscar de olhos o dia começará a jogar luz sobre a paisagem

Como uma criança me escondo, espreitando.

Ainda está escuro, não consigo ficar parada.

Lentamente os pés tateiam o piso incerto da noite,

mas em algum lugar desta curva

esconde-se o dia.

Ele saltará sobre nós em segundos

tomará a noite de assalto

e a vida de surpresa.

caminhos rotos 2

Caminhos rotos 2

 

Fazia tempo nao andava descalça

Os pés firmes no chão

E o planeta girando no seu tempo

Preciso e seguro, quase eterno

Senti a umidade da terra

E a vida que pulsava

Deitei-me no chão e chorei

Fazia tempo, também,

Que desaprendera a chorar

Tive medo, confesso,

Que tanta luz, ar puro e silêncio

Me enveredassem por escombros do passado

Mas a natureza me convidava

De braços abertos

Dormi e sonhei

com vocè que nao quero mais

com alguém que ainda espero

comigo, sentada na soleira da estrada

O dia se foi

a noite me trouxe de volta

Nem mais nem menos

outra

Caminhos rotos 1

Caminhos rotos 1

Moro onde jurei jamais passar
Fiz coisas que prometi nunca repetir
(embora siga fazendo sem conseguir evitar)
Menti sobre mim mesma de tal forma
Que nem mais posso distinguir
O falso do provisório

Se tivesse naquela época
Noção de que a vida dura um bom tempo
Talvez tivesse falado só verdades
De qualquer modo pensariam que mentia
Mas estaria livre
Não prisioneira de meus devaneios

Nesta casa que garanti não pisaria
Ao lado de quem jamais estaria
Observo o caminho das águas
Os desvios do destino
E ouço ao longe o riso nervoso
Daqueles que evitei e que me aguardam

Se tivesse tido coragem
De virar a mesa na hora certa
A vida hoje seria outra
Uma outra casa onde numa mesa virada
Beberia vinho e talvez até brindasse
com os indesejáveis

Agora eu sei
Nao se foge de si mesmo
Uma vida inteira
No último instante ou quase
O amante do momento retira a máscara
E é você mesma a peça que faltava.